Economia e mercado

A verdadeira face da inflação brasileira

Visão Geral

A inflação é um problema que está tirando o sono de diversos bancos centrais ao redor do mundo. Até o momento há uma disputa de visão das raízes da inflação. Para os bancos centrais, a inflação é temporária – ainda que possa durar um pouco mais de tempo. 

Para analistas, a inflação deve perdurar mais, especialmente em função dos elevados gastos públicos desses últimos dois anos de pandemia. Se isso ocorrer, os países em desenvolvimento terão que aumentar ainda mais as suas taxas de  juros. E isso deve acarretar um grave problema econômico.

Claramente, isso mostra que os problemas brasileiros não são os mesmos que os problemas dos países desenvolvidos. Existem diferenças relevantes que precisam ser observadas.

Acompanhe nossa análise a seguir.

O que está pautando a alta da inflação no mundo?

Na última terça-feira (30), o Gabinete de Estatísticas da União Europeia divulgou a inflação preliminar da Zona do Euro no mês de novembro. Sem surpresa, o indicador em termos anuais alcançou 4,9%, o que representa o maior nível desde julho de 1991.

Nos Estados Unidos, até pouco tempo se discutia um regime de metas de inflação condizente com níveis mais elevados de preços, refletindo uma tentativa desesperada de elevar ainda mais esse patamar do país. A inflação atual, vale comentar, é a mais alta desde novembro de 1990.

A grande pergunta que fica é: como os países desenvolvidos que até pouco tempo atrás estavam às voltas com problemas trazidos pelo baixo nível de preços agora estão com inflações tão altas?

A resposta mais debatida é simples, bastante intuitiva e em grande medida correta. Aumento dos preços das commodities e de produtos cujas cadeias produtivas foram prejudicadas pela pandemia.

Apenas a título de curiosidade, o preço da gasolina nos Estados Unidos aumentou cerca de 50% nos últimos doze meses. No Brasil, o aumento em doze meses foi de 42,7% para os preços da gasolina e de 67,4% dos preços do etanol.

A demanda global voltou a subir diante do afrouxamento das medidas de restrição contra o coronavírus e os preços das principais commodities acompanharam este ímpeto da atividade econômica, encarecendo também os produtos e serviços aos consumidores finais.

Além deste aumento nos preços das commodities, o estrangulamento da cadeia produtiva de vários setores durante a pandemia também estão trazendo pressão sobre os preços aos consumidores. Nos Estados Unidos, os preços dos carros usados aumentaram cerca de 26,4% nos últimos 12 meses.

O problema da inflação no Brasil é mais agudo

Então, é verdadeira a história de que a inflação registrada em 2021 é parte de um fenômeno global que tem como pano de fundo os desdobramentos da pandemia – que ainda estamos atravessando.

O que não é verdade é que os problemas brasileiros sejam os mesmos que os países desenvolvidos estão enfrentando. Existem diferenças relevantes que precisam ser notadas..

É verdade que os aumentos de preços da gasolina, etanol, diesel, gás de cozinha e uma infinidade de outros bens e serviços ligados à alimentação também são problemas enfrentados pelo Brasil neste momento. 

Mas aqui nós temos um problema adicional: o câmbio.

Uma parcela importante dos bens que são consumidos no Brasil tem origem estrangeira ou contam com insumos e matérias-primas importadas para serem produzidos por aqui.

Com a forte desvalorização do real em relação ao dólar, movimento que alguns economistas creditam, de forma equivocada, exclusivamente a deterioração do quadro fiscal, há o repasse desse aumento de custos ao consumidor.

Em outras palavras, quanto mais caro o dólar, mais caro os produtos e matérias-primas. Quanto mais altos os custos dos bens e serviços, mais altos serão também os preços aos consumidores finais.

O grande problema aqui é: a desvalorização crônica da nossa moeda está muito ligada à situação política do país. A cada novo problema – ataques à democracia, disputa entre poderes, questionamento sobre a lisura do processo eleitoral etc – novas rodadas de desvalorização do real.

Lamentavelmente trata-se de um ciclo que tende a se agravar ainda mais em 2022, com potencial de prolongar ainda mais o quadro inflacionário.

Os remédios adotados podem agravar o cenário

Existe uma ampla discussão sobre os motivos que têm levado ao aumento de preços no Brasil. Alguns colegas atribuem a elevação da inflação ao desequilíbrio fiscal, exclusivamente. Um erro completo.

O aumentos de preços domésticos têm sido influenciado por uma gama de fatores, dentre os quais, destaco: 

  • o aumento dos preços das commodities, que produziu aumento de custos para quem importa e gerou uma escassez relativa devido ao aumento das exportações brasileiras;
  • crise hídrica, que tem forçado a sucessivos aumentos nos preços da energia elétrica;
  • intempéries climáticas, que a acabaram trazendo problemas para a safra 2021-2022 como aconteceu com o café;
  • crise política, que produz aumento do preço do dólar norte-americano ao afugentar dólares do país e inibir novos investimentos internacionais;
  • desarranjo das cadeias produtivas produzidos pela pandemia e as consequentes medidas de isolamento social;
  • desancoragem das expectativas.

Esses são alguns dos elementos que explicam os aumentos de preços vistos no Brasil nos últimos meses.

No entendimento do Banco Central, é importante fazer uma política monetária restritiva neste momento na tentativa de ancorar as expectativas para 2022 e 2023, ou seja, o aumento da taxa de juros serviria neste momento como um recado ao mercado. A autoridade monetária brasileira não será intransigente com uma  inflação mais elevada.

O grande problema desta política monetária mais restritiva – aumento da taxa básica de juros – é que ela tem potencial para frear bruscamente a atividade econômica em 2022. Além disso, o aumento da taxa Selic terá pouco apelo contra a inflação em curso, por se tratar de uma inflação com mais componentes de oferta que de demanda.

Perspectivas

Entre todas as variáveis que têm gerado o aumento de preços no Brasil, a elevação da cotação do dólar tem lugar de destaque. E se a taxa de câmbio é um grande problema para a inflação brasileira, nós temos grandes desafios pela frente.

As disputas políticas e a desancoragem fiscal, ou seja, as tentativas de criar caminhos para burlar o teto de gastos, devem trazer ainda mais desvalorização da nossa moeda.

Consequentemente, o uso da taxa Selic para controlar a inflação deve ser muito pouco eficiente, porque não atrairá mais dólares ao país e produzirá um ambiente muito árido para a retomada econômica do ano que vem.

E sabe o que é pior nisso tudo?

Os bancos centrais dos países em desenvolvimento terão que aumentar ainda mais as suas taxas de  juros quando o Federal Reserve (Fed) e o Banco Central Europeu (BCE) decidirem que é hora de subir os juros para controlar a inflação por lá.

Quando isso se confirmar, o Brasil pode viver uma crise tão ou mais intensa do que a vivida em 1980, em função das altas de juros nos EUA, Inglaterra e outros países centrais.

Seguimos de olho.

André Galhardo

Economista-chefe da Análise Econômica Consultoria, professor e coordenador universitário nos cursos de Ciências Econômicas. Mestre em Economia Política pela PUC-SP, possui ampla experiência em análise de conjuntura econômica nacional e internacional, com passagens pelo setor público.

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