De criptoativo a criptomoeda, por André Galhardo

A criação de uma moeda digital chinesa tem o potencial de trazer profundas mudanças no sistema financeiro global e pode colocar em xeque a potência das políticas econômicas americanas e a hegemonia do dólar.

O anúncio de que o governo chinês passará a usar o Yuan digital em moldes semelhantes ao que é visto atualmente com criptoativos, como o Bitcoin, chamou a atenção do mundo todo.

A criação de uma moeda digital por parte de um Estado com as dimensões da China tem o potencial de trazer profundas mudanças no sistema financeiro global e pode colocar em xeque a potência das políticas econômicas americanas e a hegemonia do dólar.

O que esperar de tão significativa mudança e de tamanha corrida tecnológica?

Acompanhe nossa análise a seguir.

O Yuan digital – a verdadeira criptomoeda

Não, isso não é uma propaganda do governo chinês. O fato de dar a alcunha de “verdadeira criptomoeda” ao Yuan digital vem do fato de que sendo uma moeda estatal, ele pode (potencialmente) cumprir com as principais funções de uma moeda como conhecemos.

Para ser chamado de moeda um ativo deve cumprir as três funções a seguir: deve permitir que pessoas, empresas e governos transfiram o poder de compra do presente para o futuro, função que nós economistas chamamos de “reserva de valor”; deve servir como “meio de troca” entre vendedores e compradores de bens e serviços; e por fim, deve servir como padrão de medida usado por pessoas e empresas para precificação destes bens e serviços e para registrar débitos, o que chamamos de “unidade de conta”.

Olhando para os milhares de criptoativos disponíveis no mundo atualmente, é fácil perceber que ao menos uma das funções não se aplica sobre eles. O Bitcoin, criptoativo com o maior volume entre todos os criptoativos existentes, não cumpre a função de meio de troca, por exemplo. Por mais que já seja aceito há mais de uma década em PUBs, cafeterias, livrarias e agora até para a compra de carros produzidos pela Tesla, o Bitcoin ainda está longe de apresentar a liquidez das moedas tradicionais.

Além disso, por mais que os últimos meses tenham sido de intensa valorização desse ativo, a volatilidade presente na cotação do Bitcoin no mercado também não permite que ele cumpra a função de unidade de conta.

Uma moeda com as características das atuais “moedas digitais” sob o comando do Estado poderia reduzir o problema da volatilidade, e permitiria que ela fosse aceita em todos os estabelecimentos, ou seja, o Estado usuária instrumentos legais, chamados de curso forçado, para que todos aceitassem a moeda digital. Tais mudanças confeririam ao Yuan digital e a todas as demais moedas estatais que virão, o título de verdadeiras moedas digitais.

Os interesses da China

A criação e estabelecimento de uma moeda digital permitiria a China sonhar com o aumento da importância do Yuan no sistema financeiro global.

Um dos elementos centrais nessa estratégia chinesa é permitir que o Yuan seja usado além dos limites físicos do seu território sem que para isso precise da “permissão” dos atores que já dominam o sistema financeiro global, a saber, Estados Unidos e Zona do Euro.

Apesar de a China ser responsável por mais de 15% das trocas globais de mercadorias, o Yuan representa apenas 4% do volume total de transações globais. E isso é evidentemente um problema para o plano da China de tornar o Yuan uma moeda conversível em nível do dólar americano.

A ideia chinesa é integrar a China com pessoas e empresas estrangeiras, dada a facilidade do envio e recebimento de recursos, além de permitir que pessoas e empresas que estão sob vigilância dos Estados Unidos possam fazer transações sem comprometer a diplomacia entre os dois países.

Além disso, a China poderia controlar os gastos de cada um dos detentores da nova moeda digital. Aqui entra o argumento contrário à moeda digital controlada pelo Estado. Alguns dirão que o controle estatal, ainda que o Estado possa conferir ao usuário uma espécie de anonimato controlável, seria o maior dos entraves para que o Yuan concorra com os atuais criptoativos.

E neste sentido, de controle da autoridade monetária chinesa sobre os detentores do Yuan digital, por exemplo, surge um eventual aumento da potência da política monetária chinesa, permitindo ao Estado criar uma série de mecanismos que impeçam os agentes de entesourar recursos em um ambiente de enfraquecimento da atividade econômica, por exemplo. Aventou-se até a possibilidade da criação de mecanismos que adicionem uma espécie de data de validade à moeda digital, fazendo com que a política monetária seja, de fato, transmitida ao setor real da economia.

Esses são apenas alguns dos interesses chineses ligados ao estabelecimento do Yuan digital, mas entre todos eles outro resultado indireto chama mais a atenção: os instrumentos macroeconômicos do resto do mundo.

O Modelo Mundell-Fleming

Não se assuste com o título, ele faz referência a um modelo criado pelos economistas Robert Mundell e Marcos Fleming. O primeiro, Mundell, vencedor do prêmio nobel de economia em 1999, nos deixou essa semana (4) aos 88 anos.

De forma bastante sintética, o modelo construído por Mundell e Fleming permite analisar o comportamento das economias e os resultados potenciais das políticas monetárias e fiscais levando em conta a interação entre diversas economias com distintas taxas e regimes cambiais.

A chegada de uma moeda digital amparada pelo estado, pode colocar à prova muitos dos conceitos que conhecemos na área da macroeconomia. Uma moeda estatal digital pode trazer profundas mudanças nos resultados obtidos a partir do uso da taxa de juros e ou dos gastos do governo, sobretudo depois que outros países embarcarem nessa jornada.

Se hoje, o que está preconizado no modelo macroeconômico citado acima é que os países em desenvolvimento têm, por vezes, sua política monetária restringida pelo comportamento dos banco centrais dos países desenvolvidos como, por exemplo, o Federal Reserve e o Banco Central Europeu, com a chegada de uma moeda digital, “livre” de fronteiras e de rastreios, muda-se a lógica das políticas monetária, fiscal e cambial, sobretudo quando os Estados Unidos e a Europa também entrarem no jogo.

O presidente do banco central americano, Jerome Powell, já declarou publicamente que o dólar digital está nos planos da autoridade monetária local e que é uma questão de quando e não se haverá um dólar digital.

A China da o primeiro passo do que pode ser o futuro das moedas estatais, estejamos atentos às mudanças para que o Real não perca o Yuan e o Dólar de vista.

Veremos.