Para onde devem ir os juros em 2020?

por André Galhardo
3 minutos de leitura
Christine Lagarde: para onde vão os juros em 2020 no Brasil, Europa e Estados Unidos?

Se 2019 foi marcado por cortes nos juros e alívio monetário em todo o mundo, qual é a disposição dos Bancos Centrais em relação às taxas de juros em 2020.

Pela ordem, esta semana o Federal Reserve System (FED) decidiu manter inalterada a taxa básica de juros no intervalo de 1,5% – 1,75%, declarando que será mais fácil um novo corte que um aumento da taxa para 2020. No Brasil, o Banco Central decidiu realizar mais um corte na taxa básica de juros, levando a Selic para o menor patamar nominal da história e, segundo o Comitê de Política Monetária, é provável que haja mais cortes na taxa.

O Banco Central Europeu (BCE) também decidiu manter inalterada a taxa básica em 0%, sem sequer especificar quando a política monetária ultra expansionista sairá de cena. Pois bem, esses são sinal de 2019, mas quais serão as posturas adotadas pelos presidentes e membros dos comitês destes bancos em 2020?

Acompanhe!

Estados Unidos: necessidade de crescimento pode manter juros em baixa

A coisa mais importante a fazer quando se fala em política monetária é olhar para a maior economia do mundo. Nós vivemos em um ambiente que, a despeito do aumento do protecionismo nos últimos anos, está totalmente conectado.

O Brasil só pode lançar mão de uma agenda de política monetária expansionista – redução dos juros domésticos –  em função da queda da taxa básica de juros nos Estados Unidos.

Se os Estados Unidos decidirem, por qualquer motivo, aumentar a taxa básica de juros em 2020, o Brasil já perderá completamente a autonomia sobre sua própria taxa de juros, isso acontece porque, mesmo tendo importantes volumes de divisas internacionais, rendimentos maiores e mais seguros nos Estados Unidos significa fuga de recursos estrangeiros do Brasil para outros países.

Bem, então o Brasil pode ficar tranquilo, ademais, como disse o próprio Jerome Powell, presidente do (FED), é mais fácil agora cortar a taxa que aumentá-la no ano que vem. Não é bem assim e veremos o porquê adiante.

Por que Powell disse que é mais fácil cortar que subir a taxa nos próximos meses? Por alguns motivos importantes e muito evidentes. O primeiro deles é a possibilidade do agravamento da guerra comercial com a China; o segundo envolve o tipo de crescimento visto nos Estados Unidos.

Há muitos trimestres que temos visto a economia crescer basicamente por conta do aumento dos gastos do governo e pelo consumo das famílias. Pois bem, e quando o dinheiro do governo acabar? (dica: já acabou) e o dinheiro das famílias? Qual será o motor propulsor de um crescimento tão robusto?

Ninguém sabe a resposta. O que se sabe é que as coisas melhoraram nos últimos meses, sobretudo no segundo semestre de 2019, mas ainda assim, a chance de uma desaceleração global relevante é mais provável que a chance de manutenção deste crescimento por muito mais tempo.

Brasil: juros baixos enquanto a economia não reagir

Taxa básica de juros baixa no mundo todo e por tempo indeterminado, só alegria não é, Brasil? Mais ou menos!

Primeiramente é importante destacar que a Selic baixa é excelente para o país, que sempre conviveu com taxas inexplicavelmente elevadas, mesmo quando comparamos o nosso país com países economicamente de menor estatura.

Outro fator importante é entender o porquê da taxa estar tão mais baixa em relação à média do padrão brasileiro. Isso tem nome, na verdade, nomes como, por exemplo, atividade econômica anêmica e, consequentemente, expressiva degradação do mercado de trabalho.

O desemprego está elevado, a atividade econômica está fraca, logo nos restam poucas alternativas para ver se o país finalmente volta a crescer, e uma destas alternativas é a política monetária expansionista.

A depender da resposta dada nos últimos meses, haverá um longo caminho de juro baixo pela frente. Segundo o próprio Banco Central do Brasil, a defasagem temporal das políticas monetárias é de três a quatro trimestres. Já se foram 17 trimestres desde o começo da política monetária expansionista, iniciada em outubro de 2016.

E os juros baixos lá fora, ajudam? Em teoria, sim. Nos dá autonomia e permite nos despirmos da camisa de força chamada juros. Mas essa é só uma das versões.

A outra é que uma parte importante do nosso produto interno bruto (PIB) vem de empresas ligadas a exportações e, lá fora, as taxas são baixas pelo temor de que a economia global enfrente grandes problemas nos próximos trimestres. Corremos o risco de sofrer as consequências de uma grande crise, mesmo adotando uma taxa básica de juros nunca antes vista por aqui.

A propósito, falando em problema, apenas um adendo, mesmo diminuindo a Selic de 14,25% para 4,50% o spread bancário diminuiu apenas timidamente. Prova disso é que o governo decidiu baixar os juros, do cheque especial por exemplo, na canetada. Uma coisa é a Selic baixa, outra é o crédito ao consumidor. 

Europa: juros a zero por mais um longo tempo

Na Europa o cenário também é um pouco frustrante, há quase quatro anos com a taxa de juros igual a 0%, os países custam a apresentar bons resultados.

Dificilmente haverá reversão de tendência de manter a taxa nominal em 0%, se estamos comemorando que a indústria da Alemanha está caindo menos do que foi visto no segundo semestre do ano passado,

Ou seja, nem mesmo entregando dinheiro a um custo real negativo a Zona do Euro não tem sido capaz de apresentar resultados dignos de uma economia onde o custo do dinheiro é igual a zero.

Perspectivas

Nos Estados Unidos, o medo de uma crise encabeçada pela guerra comercial e pela desaceleração da Zona do Euro, deve manter a taxa de juros em níveis baixos e isso pode ser bom para o Brasil.

Na Europa, os reflexos da guerra comercial e o temor de que o brexit sem acordo sirva de inspiração para países insatisfeitos do bloco, também devem manter a taxa de juros baixas nos próximos meses e isso pode ser bom para o Brasil.

No Brasil, o cenário um pouco mais benigno acerca da atividade econômica global, bem como a insuficiência econômica doméstica, nos permite/nos obriga a manter a taxa de juros ‘baixa’ para padrões brasileiros, mas, infelizmente, a política monetária expansionista de Roberto Campos Neto pode não reverberar até o bolso do consumidor brasileiro.

Por enquanto, dólar para baixo e real para cima. Mas nem só de capital especulativo viverá o investidor estrangeiro, é bom que encontremos uma saída para voltar a crescer de verdade, e permitir que aproveitemos os juros baixos do exterior.

Veremos!

André Galhardo é economista-chefe da Análise Econômica Consultoria, professor e coordenador universitário nos cursos de Ciências Econômicas. Mestre em Economia Política pela PUC-SP, possui ampla experiência em análise de conjuntura econômica nacional e internacional, com passagens pelo setor público.

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