O mercado nos primeiros dias do novo governo

O maior destaque da semana em terras tupiniquins foi a posse e a primeira semana de governo de nosso novo presidente, Jair Bolsonaro.

Após a cerimônia que ocorreu na terça-feira (01), os dias foram intensos com toda a população de olho em cada fala, anúncio e medida anunciada, e, claro, com os investidores locais e internacionais à espera de boas novas.

Jair Bolsonaro manteve o discurso visto na campanha, que foi o suficiente para renovar a esperança de que teremos mudanças por aqui. Em suas falas, a promessa de realizar reformas estruturantes, defender o livre mercado e a família brasileira foram os principais destaques, que empolgaram o público já na posse.

Mas na quarta-feira (02), quem ficou sob os holofotes foi Paulo Guedes, já que foi a vez de sua posse e dos demais ministros.

O discurso pró reformas do ministro da Economia agradou, em especial quando passou por temas como previdência, privatizações e simplificação de tributos como os “pilares da nova gestão”. Precisamos mais do quê?

Com isso, o ânimo tomou conta. Com tais propostas somadas à privatização da Eletrobrás e o apoio do PSL (partido do presidente) ao Rodrigo Maia (DEM-RJ) para seguir como presidente da Câmara, soaram como música ao ouvido dos investidores. O resultado? Bolsa em sua máxima histórica e o dólar rompendo a barreira dos R$ 3,80.

O entusiasmo até estas linhas parece não ter fim, e você já pode estar presumindo o dólar em direção aos R$ 3. Mas devemos sempre ter uma dose de cautela, e atualmente, o alerta vem lá de fora.

Na China, o índice PMI (dados de atividade) oficial da indústria caiu a 49,4 em dezembro. Ficou abaixo da linha divisória de 50, que indica expansão da atividade, pela primeira vez desde julho de 2016.

Isso significa o aumento da preocupação com a desaceleração do gigante chinês. E não só, é a indicação de que o país já está sofrendo as consequências da guerra comercial com os EUA.

Se a China sofre, nos EUA não é diferente.

A Apple anunciou perspectiva de receita menor – o que não acontecia nos últimos 20 anos – devido a demanda mais fraca da China. Também consequência da guerra comercial.

O Rali de Janeiro

Enquanto aguardamos o desdobrar dessa disputa e demais riscos externos, não desgrudamos do grande gatilho esperado por aqui: a aprovação de ao menos uma parte da reforma da Previdência, que é o que promete trazer o fluxo gringo correndo para o Brasil.

E os primeiros sinais dessa virada de mão já estão aparecendo.

Comentei há algumas semanas que os estrangeiros estavam apostando na valorização do dólar (posição comprada), isso durante quase o ano de 2018 todo. Mas agora estamos vendo uma mudança; estão passando a posição vendida apostando na valorização do real. Isto é um ponto de atenção importante que aponta um leve aumento na confiança com o Brasil.

Como não tenho bola de cristal, cravar uma cotação para o dólar nos próximos meses não é possível (aliás, desconfie de estimativas com três casas decimais e recheadas de convicção por aí). Mas, como por ora, a preocupação não está na taxa de juros nem na inflação e sim em um crescimento parrudo e consistente, daqui para frente o patamar por volta de R$ 3,70 parece confortável.

Mas como já disse, não se empolgue com previsões muito precisas nem acredite que não teremos turbulências por aqui. O início do ano está confortável e otimista, mas em um país em que a instabilidade faz parte do cotidiano, não devemos (nunca) nos acomodar. E a cada dia que passar essa blindagem que estamos criando, ao cenário externo nebuloso, será testada.

Portanto, podemos esperar o rali de Natal (a tendência de fechamento de Bolsas em alta em dezembro) que não veio, para o rali de janeiro. Não poderíamos ter um início de ano melhor.

Um abraço e até semana que vem.

Glenda Mara Ferreira é Economista, bacharel em Relações Internacionais com experiência em planejamento financeiro. Atualmente é especialista em investimentos na Levante e acabou de inaugurar um canal no YouTube sobre finanças pessoais, Glenda Mara.