Confiança, investimentos e movimento do câmbio

Temos destacado de forma bastante enfática em nossas análises que o período pelo qual a economia brasileira está passando exige cautela.

Isso não significa “jogar contra” tudo que está aí. Ao contrário, significa que devemos ser realistas quanto às expectativas de retomada do crescimento econômico brasileiro.

Lembro-me de uma aula no início da faculdade de ciências econômicas em que a professora destacou a importância do economista. Na ocasião, a professora comparou a prática do economista com a prática do médico.

O médico tem uma grande responsabilidade em mãos, pois trata da vida de outros. Um erro cometido coloca em risco a vida de um paciente.

Por outro lado, o erro de um economista pode colocar a vida de centenas ou milhares de pessoas ao conceber uma política econômica inadequada.

Portanto, ser realista em nossas análises é fundamental para evitar desastres econômicos que coloquem a vida das pessoas em risco.

Confiança do Empresário

Um dos dados relevantes que comumente são mal interpretados e se enquadram na cautela a qual me referi acima é a confiança do empresário.

As pesquisas de confiança, também conhecidas como pesquisas de clima, apresentam resultados voláteis a depender do contexto. Em outras palavras, os resultados variam de acordo com o momento em que são analisadas.

Nesse sentido, a confiança do empresário busca apresentar elementos que tragam alguma segurança quanto a retomada dos investimentos empresariais. Isto se dá por uma questão de ordem prática: investimentos representam expansão da produção que, por sua vez, sinaliza geração de empregos, ampliação da massa salarial e, por conseguinte, consumo. Em suma, simboliza que a roda da economia voltará a girar.

Mas a relação não é tão direta assim.

Para que este movimento ocorra, é fundamental que a confiança registre um movimento consistente – e não volátil. Além disso, o dado de confiança precisa necessariamente vir acompanhado de uma retomada dos investimentos.

Índice de Confiança da Indústria de março/2008 a março/2019

Perceba que a confiança do empresário industrial encontra-se em níveis menores do que aqueles registrados em 2008-2009. Além disso, ainda que possamos identificar uma trajetória de retomada da confiança a partir de junho de 2015, os dados praticamente estagnaram de meados de 2018 pra cá.

E mais importante ainda: não identificamos a retomada dos investimentos. Um parâmetro importante que as pesquisas de clima trazem é o chamado Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI).

O que o gráfico evidencia é que de todas as máquinas, equipamentos e instalações industriais no país, por volta de 75% estão sendo usadas. Perceba como a linha do gráfico encontra-se mais ou menos estável e faça o seguinte exercício: se você, enquanto empresário, não utilizasse toda a sua capacidade instalada, você investiria para expandir a sua produção?

Certamente, não.

A política na economia

Mas, então, como explicar o movimento de retomada da confiança que o gráfico identifica com clareza? Bem, a confiança é volátil e baseia-se em dois componentes: a avaliação da situação atual e a avaliação das expectativas para os próximos meses.

Componentes do Índice de Confiança dessazonalizados

Esses dados acompanham os acontecimentos políticos. O empresário faz uma avaliação com base em suas percepções e em análises de outros profissionais e, desta forma, estima o impacto sobre o seu negócio no presente e nos próximos meses.

E, como você pode imaginar a essa altura, os últimos anos não foram fáceis. Por um lado, existem subsídios para a melhora na expectativa dos empresários. Sob nossa leitura, em grande medida, o principal elemento é o esforço em ajustar a economia – independente da “qualidade” deste esforço.

Mas os resultados nem sempre ocorrem como propagandeados e, assim, a confiança vai oscilando até que resultados concretos e objetivos possam embasar a retomada dos investimentos por parte dos empresários.

A política na confiança

Observemos mais atentamente a passagem de fevereiro para março. Os dados de confiança registraram queda de 99 pontos para 97,1 pontos. Cabe lembrar que o dado de março é preliminar. O resultado oficial será divulgado dia 29 de março.

Esta queda foi determinada tanto pela piora na percepção dos empresários em relação à situação atual dos negócios como pelas expectativas futuras. O Índice da Situação Atual (ISA) recuou 1,3 ponto, para 97,5 pontos, e o Índice de Expectativas (IE) recuou 2,4 pontos, para 96,8 pontos.

O desempenho do índice de confiança acompanhou bem de perto os movimentos recentes na política brasileira, os quais redundaram em uma crise bastante profunda e na pior avaliação de um governo em seus primeiros meses desde a redemocratização.

Em primeiro lugar, a proposta de reforma da previdência, tão esperada por todos, criou um ambiente de discussão e incertezas. Para muitos, ela era muito “agressiva” e “ousada”, portanto, não seria aprovada facilmente.

Além disso, a ausência dos militares na proposta gerou desconforto, o qual foi rapidamente abafado com a promessa de submeter a reforma dos militares em 30 dias. Nesse ínterim, a segunda grande bandeira do governo Bolsonaro foi hasteada: o pacote anticrime do ministro da justiça Sérgio Moro foi apresentada.

Paralelo a tudo isto, diversos escândalos envolvendo a família Bolsonaro levantaram mais preocupações com a possibilidade de não-aprovação das reformas. E os empresários estiveram atentos a cada movimento.

Então, na quarta-feira (20/3), a proposta de reforma da aposentadoria e reestruturação de carreira dos militares foi apresentada. No mesmo dia, Moro enviou uma mensagem cobrando agilidade de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados na votação do pacote anticrime.

No dia seguinte, a Lava Jato do RJ prendeu o ex-presidente Michel Temer e seu ex-ministro Moreira Franco – por acaso, sogro de Maia. O presidente da Câmara dos Deputados ficou profundamente incomodado com as cobranças de Moro e cravou: “Eu acho que ele [Sérgio Moro] conhece pouco a política. Eu sou presidente da Câmara, ele é ministro, funcionário do presidente Bolsonaro. Ele está confundindo as bolas.”

O racha se instalou. Isso foi suficiente para Maia declarar que deixaria a coordenação da articulação para a aprovação da reforma da previdência.

E o presidente Jair Bolsonaro, que deveria claramente atuar de modo a minimizar os desdobramentos da crise, colocou mais gasolina na fogueira ao culpar a “velha política” pela insatisfação de Maia e de outros parlamentares com o governo.

Como era de se esperar, todo esse espetáculo – coroado com a ausência de Paulo Guedes na audiência na Câmara sobre a reforma – deixou claro para os empresários que os resultados não virão. A queda dos dois componentes do índice de confiança, o ISA e o IE, são prova fundamental dessa percepção.

Tá, mas e o câmbio?

Tenho sido insistente em nossas análises de que o câmbio segue uma tendência à desvalorização. Essa tendência do câmbio, reflexo das condições objetivas da economia brasileira, é amenizado eventualmente por movimentos especulativos em torno das expectativas com as reformas.

E é bastante simples compreender este movimento. Sem entrar no mérito dos resultados que podem ser realmente alcançados, as reformas propõem sanar as contas públicas, retomar investimentos, emprego, consumo e, portanto, colocar a economia brasileira na rota do crescimento mais uma vez.

Os investidores estão constantemente de olho nessas oportunidades, em busca de retornos aos seus investimentos. E na atual conjuntura, em que os movimentos políticos são incertos, bem como os consequentes resultados, só há oportunidades para especular no curto prazo, gerando volatilidade para a moeda.

Portanto, os movimentos erráticos do cenário político afetam a confiança de empresários. Sem projetos de investimento, a entrada de recursos busca aproveitar oportunidades pontuais, de curto prazo, mantendo o câmbio em movimento igualmente errático e volátil.

Seguimos de olho.

André Galhardo é economista-chefe da Análise Econômica Consultoria, professor e coordenador universitário nos cursos de Ciências Econômicas. Mestre em Economia Política pela PUC-SP, possui ampla experiência em análise de conjuntura econômica nacional e internacional, com passagens pelo setor público.