Governos divulgam medidas econômicas para conter crise do Covid-19

Em meio a piora da pandemia de Covid-19 a nível global, governos do mundo inteiro buscam medidas que visam amenizar efeitos econômicos cada vez mais latentes. Leia a análise de André Galhardo sobre os efeitos do cenário de crise nas moedas globais.

Governos do mundo inteiro divulgam medidas econômicas para conter crise do Covid-19

Diante da pandemia causada pelo Covid-19, governos já se preparam para o pior. Alguns queimam reservas, outras flexibilizam a política monetária e há ainda o montante de recursos que será injetado diretamente na mão de empresas e famílias, a fim de minimizar os impactos da “segunda onda” – como tem sido chamada a crise econômica que sucederá o período de distanciamento social.

Acompanhe os desdobramentos desses acontecimentos sobre as principais moedas globais.

Dólar se mantém estável em meio a piora do cenário nos Estados Unidos

Os Estados Unidos passaram para a liderança no número de casos de coronavírus. Paralelamente, o Bureau of Labor Statistics (BLS) trouxe a preocupante notícia de que o número de pedidos de seguro desemprego aumentou vertiginosamente em uma semana.

Segundo o dado divulgado em 26 de março, o número de requerimentos de seguro desemprego foi superior a 3,2 milhões. E a tendência é continuar a aumentar. Nesse sentido, o governo estadunidense começa a se mexer para minimizar esses impactos.

O Congresso americano aprovou um pacote de ajuda no valor de US$ 2 trilhões para aliviar o impacto econômico devastador da pandemia de Covid-19. A legislação aprovada prevê recursos diretamente entregues às famílias para garantir renda para o atendimento de suas necessidades.

Complementarmente, o pacote também prevê auxílio para pequenas e médias empresas, para que elas continuem mantendo a folha de pagamentos enquanto os funcionários seguem afastados. 

No Brasil, a Câmara também aprovou um pacto com impacto potencial de até R$ 45 bilhões, em que prevê auxílio de R$ 600 para cada trabalhadores informais – em moldes muito similares a legislação estadunidense. As ações trouxeram algum alívio aos mercados. 

Nesse cenário de grande incerteza, o dólar começou a semana cotado a R$ 5,0628 na abertura do pregão de segunda-feira (23) e, na abertura do pregão desta sexta-feira (27), a moeda americana estava cotada a R$ 5,071, uma depreciação de aproximadamente 0,16% do real ao longo desta semana, que foi a mais tranquila desde a escalada da crise do coronavírus.

Na Europa, bem como em boa parte do mundo, cenário trazido pela pandemia de Covid-109 é de profundas incertezas.
Na Europa, bem como em boa parte do mundo, cenário trazido pela pandemia de Covid-109 é de profundas incertezas.

Dificuldade de prever cenários preocupa Zona do Euro

No Velho Continente, a situação segue com algumas indefinições. Após o Banco Central Europeu (BCE) ter anunciado um pacote bilionário de estímulos monetários para os bancos e empresas da Zona do Euro, discute-se adotar outras medidas que minimizem o impacto da “segunda onda”.

Em 2012, o então presidente do BCE, Mario Draghi, desenhou um programa chamado “Transações Monetárias Definitivas” (OMT na sigla em inglês) que, basicamente, se propõe a comprar ilimitadamente as dívidas soberanas dos países do bloco. 

A intenção é reduzir ao máximo o pagamento de juros e, assim, permitir que os países consigam utilizar suas políticas fiscais de maneira anticíclica. A proposta voltou à tona em reunião do BCE e, em linha com as últimas declarações de Christine Lagarde, pode ser um instrumento utilizado na atual conjuntura.

Não obstante, o avanço da pandemia de Covid-19 e a indefinição dos próximos passos tem gerado grande instabilidade para o euro. Com relação ao real, a moeda europeia abriu o pregão de segunda-feira (23) cotado a R$ 5,4165 e, na abertura desta sexta-feira (27), a cotação era de R$ 5,5495, uma apreciação de aproximadamente 2,46% do euro frente à moeda brasileira. Com relação ao dólar, contudo, a moeda europeia manteve-se estável.

Libra Esterlina apresenta forte valorização em semana marcada por mudança de tom do governo

A situação britânica é muito similar a dos vizinhos europeus. Boris Johnson chegou a propor o isolamento vertical (de determinados grupos) em detrimento do isolamento horizontal (de toda a sociedade). A prática não é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), uma vez que faltam dados que a suportem.

Apesar dos posicionamentos, o governo britânico acatou as recomendações da OMS. E, seguindo a linha dos EUA, o governo aprovou um pacote para compensar os efeitos da pandemia do novo coronavírus.  A proposta é de cobrir até 80% dos ganhos dos trabalhadores autônomos até junho – limitada a £ 2.500 libras por mês e impactará 95% dos autônomos do país. 

E na manhã de sexta-feira (27), tomou os noticiários a notícia de que Boris Johnson foi infectado pelo Covid-19. Os mercados já reagiram ao anúncio nas primeiras horas de negociação. 

Nesse contexto, a Libra Esterlina abriu o pregão de segunda-feira (23) cotada a R$ 5,9048 e registrou, na abertura do pregão de sexta-feira (27), a cotação de R$ 6,1524, uma desvalorização do real em relação a moeda britânica de 4,2%.

Perspectivas

Projetar o câmbio em condições tidas como “normais” já é um desafio. Em um ambiente de incerteza e de pandemia de Covid-19, o desafio é redobrado. De todo modo, como temos acompanhado, o real tem se mantido significativamente depreciado em relação às demais moedas.

Os diversos governos buscam, contudo, tomar ações para dirimir a incerteza e estimular suas economia, com ajudas financeiras nas casas dos trilhões, sem paralelo em toda a história econômica. 

Como não há uma previsão muito clara de quanto tempo a atual conjuntura deverá se estender, nossa os mercados caminham ao bel prazer dos posicionamentos dos governos. O que temos por certo é que, enquanto a incerteza permanecer, o real continuará perdendo valor. 

Seguimos de olho.