O mercado de trabalho pós-pandemia

Mercado de trabalho brasileiro tem apresentado dados que não representam a magnitude do impacto da covid-19 sobre a economia brasileira.

André Galhardo - De Olho no Câmbio

Visão Geral

O mercado de trabalho brasileiro tem apresentado dados que não representam a magnitude do impacto da covid-19 sobre a economia brasileira.

Neste momento é importante usar outros dados que já são disponibilizados pelo IBGE para tentar dimensionar o tamanho da degradação do mercado de trabalho no Brasil.

As questões estáticas são fortemente influenciadas pelas particularidades brasileiras que não podem ser ignoradas.

Acompanhe nossa análise a seguir.

Desemprego no BR

Na última segunda-feira (29/6), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgou os dados sobre ocupação no Brasil, segundo a Pnad Contínua Mensal. De acordo com o instituto, no trimestre encerrado em maio de 2020, o total de pessoas desocupadas foi de 12,9% da força de trabalho.

Estamos falando, portanto, de aproximadamente 12,7 milhões de brasileiros sem emprego, formal ou informal. Complementarmente, a Pnad nos apresentou uma taxa de subutilização de 27,5% no mesmo período. Trata-se, por sua vez, de um total de 30,4 milhões de pessoas.

É importante lembrar que a taxa de subutilização é formada pelos índices de desocupados, subocupados e força de trabalho potencial. Em suma, esse contingente representa a força de trabalho desperdiçada na economia brasileira. 

Desemprego à la Brasil

Ocorre que outros indicadores passaram a transmitir de forma mais fidedigna a real situação do mercado de trabalho no Brasil.

Duas coisas chamaram a atenção durante essa pandemia: a primeira, vem da relativa estabilidade do volume de desempregados depois das medidas de distanciamento social. 

Segundo o IBGE, no trimestre que se encerrou em maio do ano passado, a taxa de desocupação no Brasil era de 12,3%. No dados do trimestre encerrado no mês de maio deste ano a taxa avançou para 12,9%, o que nos parece um número positivamente surpreendente.

A segunda vem do nível de desocupação. Segundo dados da PNAD contínua, o nível caiu abaixo dos 50% pela primeira vez em toda a série histórica.

O que poderia ter acontecido para que a taxa de desemprego apresentasse degradação tão marginal em meio ao que já se conhece como a crise mais aguda da história do Brasil?

As estatísticas

Apesar de o nome da última seção sugerir outra coisa, não há nada de errado com as estatísticas brasileiras.

O IBGE segue recomendações de órgãos multilaterais, que por sua vez são utilizadas na maioria das pesquisas de emprego que conhecemos no mundo todo.

O desemprego à la Brasil faz referência a composição do nosso mercado de trabalho.

Pesquisadores do IBGE divulgaram uma matéria na qual discutem exatamente a forma como o mercado de trabalho no Brasil vem sendo monitorado. E propuseram uma leitura mais pormenorizada de indicadores que já são divulgados pelo instituto, mas ganham menos importância da mídia especializada.

A matéria trata da importância de se observar os números de desalentados – pessoas que não puderam ou simplesmente desistiram de tentar recolocação no mercado de trabalho, mesmo estando aptas a trabalhar e dispostas a se recolocar no mercado.

Além dos desalentados é importante observar a taxa de subutilização da força de trabalho, que explicamos mais acima, e o nível de desocupação, que é o nível de ocupados em relação à população que se encontra em idade ativa.

Esses números refletem a real situação pós-pandemia por aqui.

A taxa de subutilização, como já mostramos acima, ficou em 27,5% no trimestre encerrado em maio, esse percentual representa 30,4 milhões de brasileiros. No trimestre imediatamente anterior esse número era de 26,8 milhões, um incremento de quase 4 milhões em um único trimestre.

O nível de ocupação por sua vez fechou o mês de maio em 49,5%, menor valor da série iniciada em 2012, no semestre encerrado em fevereiro o nível era de 54,5%.

Dados do mercado de trabalho nos EUA

Já nos Estados Unidos, o Bureau of Labor Statistics (BLS) divulgou na quinta-feira (2/7) que o total de empregos não-agrícolas na folha de pagamento (payroll) aumentou 4,8 milhões em junho. Por conta desse movimento, a taxa de desemprego caiu para 11,1% em junho, após ter registrado 13,3% em maio e 14,7% em abril.

O movimento de recuperação dos empregos foi puxado, em particular, pela reabertura de bares e restaurantes. Desse modo, a economia estadunidense reinicia suas atividades como se o pior da pandemia já passou – ainda que um aumento nos casos de Covid-19 represente uma ameaça a esta recuperação.

Semelhanças e diferenças entre os dados

Para além das diferenças estatísticas, o que chama a atenção nos dados brasileiros, é que nós temos uma influência muito grande da formação de um mercado de trabalho “capenga”.

A taxa de desemprego diminuiu em menor magnitude no Brasil que nos Estados Unidos por diversos fatores, entrevia quais destacamos também o elevado volume de empregados no mercado informal.

Por isso a necessidade de se observar dados já divulgados, mas que ganham menos atenção. Só desta forma podemos mensurar o verdadeiro impacto da propagação do novo coronavírus no mercado de trabalho brasileiro.

E o impacto sobre o câmbio, afinal?

Essa particularidade do mercado vista em países subdesenvolvidos como é o caso brasileiro atuará de modo a diminuir o ritmo de retomada da economia.

É importante observar os dados adjacentes para entender a dimensão do problema e com isso realizar estimativas mais condizentes com a nossa realidade.

A forma como a sociedade brasileira se organizou ao longo dos séculos diminuirá o ímpeto da nossa retomada.

Talvez, em breve, sejamos ainda menos atrativos ao investidor estrangeiro e isso equivale a câmbio desvalorizado, ainda que em patamares menores que os que temos visto neste momento mais agudo.

No mercado de trabalho também estamos fadados a pagar o preço do atraso.

Veremos.