INDICADORES

Preços

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A semana recheada de indicadores nacionais não prometia muitas surpresas. Na verdade, de forma geral, o mercado não esperava nada de novo. Até que o nível de preços oficial foi divulgado.

Dada a baixa dinâmica da atividade econômica e o elevado número de desempregados, espera-se que o IPCA e demais indicadores de preços do Brasil permaneçam bastante comportados em 2019, mas o dado mensal de fevereiro veio com variação mais forte para  mês desde 2016.

A variação de 0,43% de fevereiro foi fortemente influenciada pelo comportamento dos preços dos alimentos e pelas mensalidades escolares.

Cabe lembrar que a variação acumulada em 12 meses está em 3,89%, abaixo do centro da meta. E assim deve permanecer por um período bastante distendido. Em outras palavras, a inflação não é uma ameaça, mas o indicador de fevereiro veio bem mais forte que a mediana das projeções do mercado.

Indústria

Outro dado divulgado pelo IBGE mostra que os indicadores antecedentes têm sido um bom parâmetro para a leitura do dinamismo econômico nacional.

Dados preliminares apontam para uma continuidade do resfriamento da economia nacional no primeiro trimestre de 2019. E o primeiro dado relevante e oficial, acerca da produção industrial brasileira mostrou desaceleração no primeiro mês do ano.

Na passagem de dezembro de 2018 para janeiro de 2019 a produção física recuou 0,8%. Na comparação com o mesmo mês do ano passado o recuo chegou a 2,6%.

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Dois dias antes da divulgação dos dados sobre a produção industrial havia sido divulgados os resultados da indústria produtora de autoveículos.

Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a produção de automóveis de fevereiro foi 31,4% maior que a do mês imediatamente anterior.

No entanto, ao observar o comportamento do trimestre móvel, a variação do dado de fevereiro mostra uma queda de 13,6% em relação ao trimestre anterior.

Quando olhamos a evolução dos dados de licenciamentos de automóveis no trimestre móvel encerrado em fevereiro o dado também foi ruim, uma queda de 10,3%.

O índice dos gerentes de compras do setor industrial e de serviços mostraram uma melhora marginal em relação à última leitura, ou seja, ainda que haja alguma melhora no setor de serviços, industrial ou da pecuária, ainda assim esse serão incapazes de produzir um efeito significativa na economia nacional.

POLÍTICA

Algumas situações têm deixado o mercado financeiro de cabelo em pé nos últimos dias.

Primeiramente, a tramitação da reforma da previdência no Congresso Nacional começa a se mostrar bastante complexa. A Câmara fala em discutir a PEC na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) apenas depois que o executivo enviar o texto com as mudanças nas aposentadorias dos militares.

E, em segundo plano, mas não menos importante, tem o desgaste do presidente Jair Bolsonaro que, em publicações nas redes sociais, tem causado alvoroço entre correligionários, oposição e membros da sociedade civil.

Se continuar assim, será necessário mais que o R$ 1 bilhão já prometido aos parlamentares para que se aprove a PEC sem muitas alterações. É importante destacar que o governo já se posicionou de modo contrário a essa ideia.

A propósito, os parlamentares não estão satisfeitos com a promessa da liberação das emendas, uma vez que desde 2015 a execução das mesmas é impositiva e não mais autorizativa. Isso significa que, com ou sem reforma, o governo terá que executar as emendas parlamentares.

Os desgastes com a equipe ministerial também é latente, o presidente tem dificuldade em conduzir a coesão entre militares, evangélicos e pesselistas.

Não é demais lembrar que a governabilidade do presidente tem que permanecer praticamente inabalada caso o mesmo queira concretizar as principais promessas feitas em campanha.

A perda de capital político é um termômetro importante para avaliar as expectativas, a humor dos mercados financeiros e em ambos os casos os problemas extravasam e alcançam a economia real.

PERSPECTIVAS

Dados antecedentes da indústria do comércio e do setor de serviços já haviam mostrado perda do dinamismo da economia brasileiro nas primeiras semanas de 2019.

Esses dados antecedentes vêm sendo confirmados por dados oficiais como, por exemplo os dado da produção industrial referente ao mês de janeiro.

Até o dia em que esse artigo é escrito não havia nenhum elemento que apontasse para uma melhora, ainda que marginal, de algum setor ou de alguma atividade em especial, ou seja, os dados do primeiro trimestre do ano devem ser muito semelhantes aos dados do último trimestre de 2018.

A ausência de dinamismo da economia nacional cria ainda mais incerteza e isso tem o poder de postergar investimentos e manter a situação calamitosa do mercado de trabalho.

O Banco Central deve agir de forma mais célere e deve reduzir a Selic para tentar dar o impulso necessário para a produção nacional, mas como já vimos esse filme – a Selic saiu de 14,25% para 6,5% e praticamente nada aconteceu – só a política monetária não vai ajudar.

Tudo pode acontecer, inclusive uma melhora dos indicadores a partir do segundo trimestre, no entanto, 2019 tem de tudo para ser a terceira edição de 2017.

IMPACTO NO CÂMBIO

Uma possível crise mundial entre 2019 e 2020 não está descartada. Dados dos Estados Unidos ainda são relativamente bons, mas dados europeus insistem em ser cada vez piores, além disso, alguns dados chineses mostram desaceleração mais forte do que se esperava inicialmente.

A possibilidade de uma crise internacional está fazendo com que o dólar ganhe força em relação às moedas dos países subdesenvolvidos como o Brasil.

Aliado a isso, temos problemas políticos endógenos que serão capazes de trazer de volta a temida volatilidade cambial vista em anos anteriores.

A cada sinal de vitória do governo uma pequena valorização cambial associada poderá ser acompanhada, ao passo que cada desentendimento do governo terá potencialmente a capacidade de desvalorizar a moeda nacional.

Isso serve também para os indicadores internacionais. A cada publicação, alguma (des)valorização do Real associada.

A perspectiva continua sendo de desvalorização da moeda nacional. Desvalorização que pode ser atenuada se as confusões do governo federal diminuírem e se o capital político do presidente for mantido. Até aqui, nada disso vem acontecendo.

André Galhardo é economista-chefe da Análise Econômica Consultoria, professor e coordenador universitário nos cursos de Ciências Econômicas. Mestre em Economia Política pela PUC-SP, possui ampla experiência em análise de conjuntura econômica nacional e internacional, com passagens pelo setor público.

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