Redução da taxa de juros: o que isso significa na prática?

por André Galhardo
3 minutos de leitura
Redução da taxa de juros: entenda o que isso significa na prática

O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, de forma unânime, reduzir a taxa básica de juros em 0,25%, perfazendo uma taxa básica anual de 4,25%. Trata-se do quinto corte consecutivo e do menor patamar nominal da história brasileira.

Diante de tal decisão, o Banco Central emitiu um recado que corrobora com a tese de que há insuficiência de demanda doméstica, ou apenas o de que quer abrir caminho para um crescimento mais robusto que se avizinha? Essa decisão de colocar a taxa real de juro praticamente no campo negativo não pode induzir um processo inflacionário adjacente? Qual o verdadeiro impacto da menor Selic da história nas nossas vidas?

Acompanhe!

A menor taxa de juros da história: a concentração do mercado bancário

A primeira coisa que tem que ser dita é: os sucessivos cortes na taxa básica de juros são de fundamental importância para que o país possa voltar a crescer, portanto, toda e qualquer crítica feita ao atual patamar da Selic é feita com base no que ainda se espera da política monetária e creditícia do país.

O atual processo de flexibilização da política monetária teve início em setembro de 2016, quando a taxa básica de juros era de inexplicáveis 14,25% ao ano. A taxa caiu rapidamente até os 6,5%, patamar que permaneceu inalterado por nove reuniões do Copom, até que um novo ciclo de cortes nos levasse direto aos 4,25% atuais.

Como já foi dito, é a menor taxa nominal da história do Brasil, há muito o que comemorar, sim!

Ocorre que, tal como já havia dito John Maynard Keynes: “Se nos vemos tentados a considerar a moeda como a bebida que estimula a atividade do sistema, não nos esqueçamos que podem surgir muitos percalços entre a taça e os lábios”. De modo geral essa frase se encaixa perfeitamente no contexto brasileiro por uma razão em particular, o desacordo entre a política monetária e a política creditícia.

Enquanto a Selic diminuiu de 6,5% em junho de 2019 para 4,25% em fevereiro de 2020, o spread bancário saiu de 19,5% para pouco mais de 18% neste começo do ano. Esses são os percalços brasileiros.

O esforço empreendido pela autoridade monetária para ativar as variáveis macroeconômicas esbarra na concentração do mercado doméstico.

O Banco Central fala em dois ou três trimestres de defasagem temporal para os efeitos da política monetária, um tempo precioso que pode simplesmente ser muito maior em função da resistência dos bancos em reduzir a custo de captação de crédito ao empresário e ao consumidor.

Juros baixos podem trazer inflação mais alta?

Na seção anterior do texto já deu para perceber que juro básico baixo não é o mesmo que juro baixo ao consumidor ou ao empresário, portanto, acreditar que a  queda da Selic possa se traduzir em aumento da inflação é um equívoco completo.

A ausência de impacto da política monetária no índice de preços não se dá somente pela falta de conexão entre a política monetária e a política creditícia. Outros fatores apontam para a manutenção da inflação em níveis próximos ao centro da meta nos próximos trimestres.

A outra explicação para o baixo ou nulo impacto da queda da Selic sobre a inflação está na insuficiência de demanda.

Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), em janeiro deste ano uma em cada quatro máquinas do setor produtivos estavam desligadas, ou seja, essa atrofia da produção nacional permitiu que se ‘abrissem’ capacidades produtivas aptas a absorver qualquer estímulo de curto e médio prazo na demanda sem que se crie pressões inflacionárias.

A despeito da melhora do nível de emprego, é bom lembrar que o rendimento médio do trabalhador tem diminuído, e uma parcela significativa dos trabalhadores se encontram no mercado informal de trabalho, condições que colaboram para que os estímulos monetários sejam quase que decorativos no curto prazo.

Perspectivas

O Banco Central traz uma nova impressão sobre a política monetária no Brasil e isso é muito importante. No entanto, também é importante lembrar que a potência da política monetária está mortalmente reduzida, seja pela ausência de demanda, pela insuficiência de investimentos, pela concentração de mercado, enfim, são inúmeros os fatores que trabalham por inibir a eficácia da redução do juro básico no país.

A potência da política monetária no Brasil,e no mundo, é tão questionável que se pode dizer que hoje, ela é incapaz até de gerar qualquer tipo de pressão inflacionária.

A reforma tributária e a tão sonhada ‘paz’ no sistema político nacional podem ser o estopim que a economia brasileira precisa para ganhar tração inicial.

Um ambiente com menos incerteza pode trazer de volta a importância da política monetária e debelar, de verdade, a crise que custa a nos deixar, por enquanto, não tem taça e não tem lábio, são só percalços.

Veremos!

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 

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