Sensível demais

por André Galhardo
3 minutos de leitura

Visão Geral (105)

Depois de ficar por sete dias seguidos abaixo dos R$5,00, a moeda norte-americana voltou a ganhar força em relação ao real e agora encontra-se no mesmo patamar de dois meses atrás.

O grande problema nisso tudo é que o processo de valorização do real muitas vezes é interrompido por um quadro de desvalorização aguda que nos faz percorrer um longo caminho de valorização outra vez.

No texto abaixo você verá o porquê da moeda brasileira apresentar tamanha sensibilidade em relação ao dólar e como isso está nos jogando numa importante encruzilhada para 2022.

Acompanhe nossa análise a seguir.

O real é assim, sensível (281)

Depois de alcançar no dia 24/06 a menor cotação em mais de um ano, o dólar dos Estados Unidos vem ganhando terreno em relação à moeda brasileira. 

Em julho de 2021, do dia primeiro ao dia 19, o real já havia perdido nada menos que 5,7% do seu valor em relação ao dólar norte-americano.

Eu decidi fazer um levantamento do comportamento do câmbio nas 20 maiores economias emergentes e não fiquei muito surpreso com os resultados. 

Entre as 20 moedas pesquisadas, apenas uma delas apresentou volatilidade maior que a da moeda brasileira em relação ao dólar, o Rand Sul-africano.

De 2010 a 19 de julho de 2021, a média percentual dos eventos de desvalorização da moeda brasileira em relação ao dólar foi de 0,75%, quase cinco vezes maior que a média percentual das desvalorizações da moeda chinesa, por exemplo.

Ah, mas a China é acusada de manter um câmbio artificialmente desvalorizado para ganhar competitividade em relação à Europa e aos Estados Unidos. Tudo bem! Vamos ver mais?

Vamos ver a Argentina então…

O dobro! Sim, se olharmos apenas a média das desvalorizações diárias do real, ela é mais que o dobro da média do peso argentino, cujo percentual ficou em 0,37%.

Bem, esse são só dois exemplos. Papel e caneta na mão para anotar os outros 17 países cujos eventos de desvalorização de suas próprias moedas são menos intensos que no Brasil.

Além da China e da Argentina temos: México, Turquia, Egito, Rússia, Índia, Coréia do Sul, Indonésia, Tailândia, Arábia Saudita, Israel, Filipinas, Malásia, Singapura, Bangladesh, Colômbia e Vietnã.

África do Sul, primeira colocada neste ranking, apresentou média de desvalorização de 0,79%.

Por que a moeda brasileira apresenta quadros tão agudos de desvalorização? (219)

Durante muito tempo, por distintas razões, a taxa básica de juros no Brasil foi muito superior à média das taxas vistas em outros países emergentes.

Eventos relativamente recentes mostraram a nossa autoridade monetária aumentando a taxa básica de juros a 14,25% ao ano para combater uma inflação que era influenciada principalmente por preços administrados. Lembrando também que já foi muito pior. A Selic já esteve em 45% ao ano, em março de 1999.

Esse “descasamento” da taxa de juros do Brasil com o resto do mundo, transforma a nossa economia em um ambiente bastante interessante para a multiplicação do capital especulativo, no que chamamos de carry trade.

De forma muito resumida, o carry trade é o movimento onde rentistas tomam recursos emprestados em economias onde a taxa de juros é muito baixa, como no Japão ou na Zona do Euro, onde as taxas são -0,1% e 0% respectivamente, e aplicam onde os retornos são mais interessantes.

Claro que por conta da pandemia esse quadro mudou de forma sensível. A taxa de juros de curto prazo no Brasil está abaixo dos patamares históricos e a inflação encontra-se no nível mais elevado desde 2016. Apesar disso, incluindo singularidades como uma pandemia, o ambiente econômico brasileiro sempre foi muito convidativo ao capital especulativo.

E por se tratar de capitais especulativos, a saída destes recursos do país é bastante facilitada, o que acaba exercendo pressões sobre a cotação da nossa moeda.

A culpa não é só dos juros (262)

É evidente que o carry trade não é a única variável explicativa para o movimento do câmbio no Brasil. Outros fatores relevantes pesam sobre o valor da nossa moeda e um dos principais, neste momento, é a política.

Não é a política em si que exerce influência, mas as ações decorrentes dela.

A leitura do mercado é a de que governos mais condescendentes com o aumento do déficit fiscal também serão mais afeitos a eventuais aumentos de inflação e políticas monetárias mais restritivas (aumento dos juros), enquanto governos mais austeros (que pregam a diminuição de gastos do Estado) acabariam induzindo um ambiente econômico mais benigno aos negócios e uma taxa de câmbio mais valorizada.

Como disse, essa é a leitura do mercado, e por conta disso, as pesquisas eleitorais, que ganharão corpo nos próximos meses, também devem influenciar de forma significativa a nossa taxa de câmbio.

Este segundo semestre de 2021, seria uma oportunidade de ouro para o Banco Central do Brasil conduzir a taxa de câmbio para patamares mais baixos e criar uma margem para absorver eventuais desvalorizações decorrentes do pleito eleitoral do ano que vem.

No entanto, o ambiente político doméstico, a propagação da variante Delta do novo coronavírus e as pesquisas de intenção de votos com potenciais candidatos para o ano que vem, têm colocado o dólar em níveis expressivos novamente.

E para somar nesse enredo todo, a Selic continuará subindo forte nos próximos meses, o que deve trazer de volta o grande negócio que é fazer carry trade usando as taxas de juros brasileiras.

Vem mais volatilidade por aí.

Veremos.

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