América Latina em apuros

Acompanhar o câmbio é uma forma de conseguir comprar moedas estrangeiras com os melhores preços.

A situação política calamitosa na América Latina pode representar um entrave na balança comercial brasileira neste final de ano. Mesmo com reservas no azul e resultados comerciais superavitários, o cenário político no Cone Sul pode causar ainda mais desvalorização do Real e diminuir a tranquilidade do país em relação às contas externas.

Um dos poucos setores que vão bem no Brasil pode encontrar problemas nos próximos meses. Balança comercial favorável, déficit em transações correntes financiado, às vezes com folga, pelos ingressos na conta financeira, enfim, o balanço de pagamento registra a tranquilidade relativa do Brasil no setor externo. 

Temos que dizer que a própria crise que se abateu por aqui tem um papel importante na melhora do balanço de pagamentos, seja pela redução das importações, ajudando na construção de resultados comerciais importantes, seja pela desvalorização do câmbio que permitiu mais ingressos de recursos na forma de investimento direto, ou pelo estímulo às exportações. 

Como nem tudo são rosas, a ‘bagunça’ na América Latina e os problemas políticos mais ao norte podem trazer ventos e trovoadas, no que foi, até aqui, um céu de brigadeiro.

Balança e reserva no azul

Na conta de transações correntes, o quadro deficitário – muito comum no Brasil – tem sido mais suave nos últimos anos. Deixamos um déficit acumulado em 12 meses de mais de USD 100 bilhões em janeiro de 2015, para um resultado negativo de pouco mais de USD 26 bilhões na média de 2019.

Na balança comercial, componente da conta exposta acima, o resultado comercial esperado para 2019 é superavitário em mais de USD 42 bilhões, depois de ter registrados os dois maiores superávits anuais da história do Brasil em termos nominais. Em 2017 e 2018 os resultados comerciais foram positivos em aproximadamente USD 67 bilhões e USD 58 bilhões respectivamente.

O Brasil tem em reservas internacionais USD 386,5 bilhões, cerca de 1,3% a mais que o registrado em agosto de 2018 e 2,5% a mais que o registrado em janeiro deste ano.

De modo geral as coisas ainda vão muito bem, mas os ventos podem mudar.

Crise na América Latina

Na Argentina, o presidente Maurício Macri conduziu uma política econômica que trouxe resultados nefastos para a economia do país. A inflação está girando acima dos 50% ao ano, ainda que Macri tenha empreendido um congelamento de preços de produtos básicos nos últimos meses, na tentativa de escamotear o problema da perda de poder aquisitivo da moeda argentina em relação ao resto do mundo.

A taxa básica de juros da Argentina está acima dos 70% ao ano, e ainda assim o país é incapaz de angariar recursos para financiar os déficits em transações correntes, impactando diretamente na capacidade de importação da Argentina.

É comum e correto atribuir parte da desaceleração da indústria brasileira ao mergulho da atividade econômica dos nossos vizinhos.

Para completar, é possível que a oposição ao governo vença o pleito no próximo dia 27. Alberto Fernández e Cristina Kirchner, a chapa da oposição, já foram duramente atacados pelo presidente brasileiro, ou seja, as relações comerciais entre Brasil e Argentina podem ficar ainda piores.

No Peru, o presidente Martín Vizcarra tentou praticar a dissolução do Congresso Nacional após um impasse político relacionado à nomeação de juízes da Corte Suprema do país.

O processo deve se agravar e não tem data para terminar. Até o último dia 2, Peru tinha dois presidentes em exercício.

Para completar o caso, não me estenderei com o desgaste político brasileiro nos episódios que envolveram a questão da Amazônia. Desgastes que podem ter alguma influência nas relações comerciais do Brasil com a Europa.

Possibilidades para o setor externo brasileiro

A conta de transações correntes vem apresentando resultados cada vez mais deficitários. O déficit mensal de julho deste ano, USD 9,7 bilhões, foi o maior desde janeiro de 2015. O resultado comercial esperado para este ano, deve ser o menor dos superávits dos últimos quatro anos.

Tudo isso deve ser levado em conta em função da situação política calamitosa da América Latina. A tentativa aqui não é de dar uma tônica extra para a situação atual, mas você, leitor, há de convir comigo de que somadas as situações da Venezuela, Argentina, Brasil e agora Peru, já são fontes de preocupação suficiente para quem observa o câmbio.

A Venezuela, caso mais agudo de crise política e econômica do nosso continente, chegou a estar entre os dez maiores importadores de produtos brasileiros na década passada. Da série disponível no Ministério da Economia, destacam-se os nove primeiros meses do ano de 2008, quando a Venezuela alcançou o nono lugar entre os parceiros comerciais do Brasil, importando aproximadamente USD 3,7 bilhões, número que se repetiria em 2012.

Até setembro de 2019 a Venezuela havia importado apenas USD 238,4 milhões, o menor número de toda a série histórica.

A Argentina, que há muito tempo consolidou-se como terceiro principal parceiro comercial do Brasil, também tem apresentado números muito abaixo do esperado.

No acumulado dos nove meses de 2019 a Argentina importou do Brasil a quantia de USD 7,5 bilhões, sendo ultrapassada pela Holanda. Os números da Argentina são os menores para o período desde 2005.

Com menor importância em números absolutos, o Peru é o 27º maior parceiro comercial do Brasil. Até o mês nove deste ano, as empresas domiciliadas no país importaram cerca de USD 1,7 bilhão, valor 6,1% maior que no mesmo período do ano passado.

Mesmo que em menor magnitude, o desgaste da situação política no Peru é só mais um capítulo na escalada da mórbida dependência brasileira em relação às exportações à China e aos Estados Unidos.

Perspectivas

Os movimentos políticos da América Latina devem continuar trazendo problemas para as relações comerciais do Brasil. Esse processo pode diminuir a relativa tranquilidade que o Brasil tem hoje em relação às contas externas.

Aliado aos problemas dos nossos vizinhos incluem-se também a decisão da Organização Mundial do Comércio (OMC) em permitir que os Estados Unidos lancem mão de retaliações comerciais contra a Europa, tudo o que queria Donald Trump, envolvendo, dez vez, a Europa na guerra comercial.

A crise política latino americana, a guerra comercial e a desaceleração global têm o potencial de causar desequilíbrios nas contas brasileiras e, consequentemente, ao valor do Real no mercado global.

A despeito da valorização do Real até o penúltimo dia desta semana, a expectativa é de desvalorização da moeda brasileira nas próximas semanas.

Vale registrar: Equador acaba de entrar em estado de exceção.

Seguimos de olho!

André Galhardo é economista-chefe da Análise Econômica Consultoria, professor e coordenador universitário nos cursos de Ciências Econômicas. Mestre em Economia Política pela PUC-SP, possui ampla experiência em análise de conjuntura econômica nacional e internacional, com passagens pelo setor público.