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O novo pacote tarifário anunciado por Donald Trump, batizado de “Dia da Libertação”, marcou uma guinada protecionista nos EUA e gerou forte instabilidade nos mercados globais, com quedas nas bolsas asiáticas, valorização do real e alta na volatilidade cambial. As tarifas, que variam entre os países, provocaram reação imediata da China, que anunciou medidas retaliatórias e aprofundou o clima de incerteza global. Na Europa, o clima é de preocupação, com líderes discutindo possíveis represálias e suspensão de investimentos nos EUA. No Brasil, o impacto comercial direto tende a ser limitado, mas a volatilidade cambial complica a gestão macroeconômica. Ao mesmo tempo, o cenário global abre espaço para que o país fortaleça parcerias comerciais com Europa, Ásia e África, enquanto enfrenta internamente uma indústria desaquecida, juros elevados e sinais mistos na inflação e no mercado de trabalho.

Acompanhe as nossas análises a seguir.

Real x dólar

Começamos a semana com o dólar cotado a R$5,7597 na segunda-feira (31/mar), um nível 0,4% inferior à abertura da semana anterior (24/mar). A cotação da moeda estrangeira registrou desvalorização ao longo desta semana e o dólar abriu o pregão desta sexta-feira (04/abr) cotado a R$5,6211, patamar 2,3% inferior ao da abertura da sexta-feira anterior (28/mar). Entre as aberturas desta sexta-feira (04/abr) e da segunda-feira da semana anterior (24/mar), vimos uma valorização do real em relação ao dólar de 2,0%.

Os mercados seguem instáveis nesta sexta-feira (4), refletindo os desdobramentos do novo pacote tarifário anunciado por Donald Trump. Batizado de “Dia da Libertação”, o plano marca uma guinada protecionista na política comercial dos EUA, rompendo com décadas de integração global. O foco está na reindustrialização americana, mas voltado para setores tradicionais, como a indústria automobilística e o cinturão industrial de Detroit.

As tarifas impostas variam entre os países, chegando a 52% para a Índia, 49% para o Camboja e 45% para o Vietnã. O Brasil, ao lado de Singapura e Reino Unido, recebeu uma taxação mais branda, de 10%. A medida elevou a incerteza nos mercados, derrubando o DXY para sua mínima desde outubro de 2024 e impulsionando moedas como o real e o euro, que se valorizaram no dia posterior ao anúncio. 

Além disso, no dia posterior ao anúncio houve um aumento de 26% no índice VIX, que mede a volatilidade esperada para o mercado. Neste sentido, a volatilidade cambial deve persistir nos próximos dias, à medida que investidores ajustam suas carteiras diante do novo cenário.

A resposta chinesa ao caos americano veio na sexta-feira (04). Pequim anunciou tarifas adicionais de 34% sobre todos os produtos americanos e adicionou algumas empresas dos EUA à sua lista de controle de exportação. 

No Brasil, o impacto direto das tarifas tende a ser moderado em termos de balança comercial, já que a taxação foi menor do que a imposta a outros concorrentes. Por outro lado, a dinâmica cambial deve seguir volátil. o que dificulta tanto planejamento comercial de empresas e gestão da política econômica brasileira em termos de inflação e juros. 

No front econômico, os dados mais recentes apontam uma desaceleração na indústria brasileira, que recuou 0,1% em fevereiro, apesar da alta de 1,5% no acumulado de 12 meses. O ambiente de juros elevados segue como um entrave ao investimento produtivo. Já o IGP-DI registrou deflação de 0,50% em março, reduzindo a pressão inflacionária no curto prazo.

Nos EUA, o mercado de trabalho segue resiliente, mas com sinais de moderação. O número de vagas abertas caiu para 7,57 milhões em fevereiro, enquanto o relatório ADP indicou a criação de 155 mil empregos no setor privado em março. Em contrapartida a estes dados que sugerem alguma acomodação do mercado de trabalho, o Payroll dos EUA apresentou uma criação de 228 mil vagas em setores não agrícolas. Com isso, na manhã desta sexta-feira (04), o dólar já se valoriza 10 centavos ante o real. 

Diante desse cenário de maior protecionismo global e juros elevados, o Brasil tem a oportunidade de fortalecer parcerias comerciais com Europa, Ásia e África, reduzindo riscos e ampliando seu espaço no comércio internacional.

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Real x euro

O euro abriu o pregão de segunda-feira (31/mar) cotado a R$6,2340. Na abertura desta sexta-feira (04/abr), a cotação foi de R$6,2250. Portanto, a moeda brasileira registrou valorização de 0,1% frente ao euro nesta semana. 

Com relação ao dólar, a moeda europeia ganhou força esta semana, revertendo a tendência da semana anterior. A cotação do euro na moeda estadunidense passou de US$1,0815 na segunda (31/mar) para US$1,1052, nesta sexta (04/abr). Portanto, vimos uma valorização do euro de aproximadamente 2,2% (leia-se: é preciso mais dólares para comprar um euro).

O anúncio do novo pacote tarifário de Donald Trump mexeu com os mercados na última quinta-feira (03), desencadeando forte volatilidade no mercado financeiro. Apelidada de “Dia da Libertação”, a medida impôs tarifas recíprocas a diversos países, rompendo com décadas de políticas de livre comércio. O impacto foi imediato: as bolsas asiáticas, mais afetadas pelo aumento das tarifas de importação, fecharam em forte queda.

A incerteza sobre os desdobramentos da nova política comercial dos EUA vem pressionando os mercados financeiros, ampliando a volatilidade no câmbio e elevando a cautela entre investidores.

Na Europa, a repercussão foi intensa. O vice-presidente do Banco Central Europeu, Luis de Guindos, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, demonstraram preocupação com os possíveis impactos das tarifas sobre as economias do bloco. 

O presidente da França, Emmanuel Macron, foi além e sugeriu que empresas europeias suspendam investimentos nos EUA até que haja mais clareza sobre as medidas. Em um encontro com líderes da indústria francesa, Macron mencionou a possibilidade de retaliação, com medidas direcionadas a serviços digitais e ao financiamento da economia americana.

Enquanto isso, o movimento protecionista dos EUA pode acelerar negociações entre Mercosul e União Europeia. Para o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, a escalada tarifária reforça a necessidade de diversificação comercial e pode abrir caminho para um acordo mais ágil entre os blocos.

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Real x libra esterlina

A libra esterlina abriu o pregão de segunda-feira (31/mar) cotada a R$7,4511, patamar mais alto que o registrado nesta sexta-feira (04/abr), R$7,3778. Trata-se de uma valorização de 1,0% do real em relação à moeda britânica. Portanto, a semana foi marcada por um movimento de valorização da moeda brasileira em relação à libra esterlina.

Em relação ao dólar, a moeda inglesa ganhou força no decorrer da semana, mantendo a tendência de valorização registrada na semana anterior, e abriu esta sexta-feira (04/abr) cotada a US$1,3098 após ter iniciado a semana cotada a US$1,2942, uma valorização de 1,2% da moeda britânica em relação ao dólar.

Os dados econômicos do Reino Unido trouxeram um cenário misto nesta semana, com indicadores de atividade mostrando sinais divergentes. O mercado imobiliário seguiu estável, com o índice Nationwide registrando alta anual de 3,9%, em linha com as projeções. No entanto, a variação mensal decepcionou ao ficar estagnada, abaixo da expectativa de leve alta.

Os índices PMI, que medem a atividade empresarial, reforçaram um quadro de desaceleração no setor de serviços e na economia como um todo. O PMI Composto recuou para 51,5 pontos, abaixo das estimativas, enquanto o PMI de Serviços caiu para 52,5, também aquém do esperado. Esses números indicam uma expansão ainda modesta, mas sugerem um ritmo mais fraco do que o projetado pelo mercado.

Já o PMI do setor de construção, embora tenha surpreendido positivamente na leitura mensal, subindo para 46,4 pontos, o nível do PMI sugere contração profunda e preocupante do setor. Dados abaixo de 50 pontos sugerem contração do setor avaliado.

No geral, os dados reforçam a percepção de um crescimento econômico britânico desigual, com desafios no setor de construção, mas alguns sinais de resiliência em outras áreas. Isso pode alimentar especulações sobre os próximos passos do Banco da Inglaterra, especialmente em um cenário global de juros elevados.

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Perspectivas

Apesar da intensa volatilidade provocada pelas novas tarifas comerciais anunciadas pelo governo Trump, a moeda brasileira pode encontrar algum suporte no curto prazo. Dois fatores contribuem para essa possibilidade.

Primeiro, a taxação de 10% sobre as exportações brasileiras para os EUA, embora significativa, foi mais branda em comparação com as tarifas elevadas impostas a países do sul e sudeste asiático. Isso dá ao Brasil uma posição relativamente mais competitiva no comércio com os americanos. O Reino Unido recebeu o mesmo tratamento, o que sugere que Washington aplicou critérios semelhantes a determinados parceiros.

Além disso, o Brasil segue como um dos mercados mais atrativos para investidores internacionais devido às suas elevadas taxas reais de juros. Em um cenário de incerteza global, esse diferencial de juros pode continuar favorecendo a entrada de capitais de curto prazo.

Embora seja prematuro cravar uma direção definitiva para o câmbio, os fundamentos sugerem algum espaço para a valorização do real frente ao dólar e ao euro, dependendo, claro, da evolução do cenário internacional e do fluxo de investimentos.

Seguimos de olho.