Economia: o que esperar para 2021?

por André Galhardo
3 minutos de leitura

Este texto não tem a pretensão de ser uma espécie de spoiler da economia global no ano que vem, porque, apesar dos avanços em relação às vacinas, por exemplo, o elevado nível de incerteza ainda carrega os nossos cenários.

A ideia aqui é estimar o comportamento das políticas monetária, fiscal e industrial, por exemplo, e os impactos delas sobre o valor da nossa moeda. Tendo sempre como fio condutor da análise, os dados que estão postos hoje e as nossas projeções feitas a partir do nosso entendimento em dezembro de 2020.

Acompanhe nossa análise a seguir.

As contas públicas públicas

Um dos temas mais sensíveis para 2021 é o estado em que se encontram as contas públicas. Neste caso, é igualmente preocupante a situação do governo federal e a dos estados e municípios.

Começamos o ano de 2020 com uma dívida bruta do governo geral, a chamada (DGBB), em cerca de 75,8% do PIB. Em volume, isso significa dizer que nós fechamos 2019 com uma dívida estimada em R$ 5,5 trilhões.

É importante destacar que, desde meados de 2014, este indicador tem apresentado um movimento mais forte de alta, que se agravou com o advento da pandemia do novo coronavírus. De modo geral, é correto dizer que o volume da dívida continuou aumentando mesmo com a limitação dos gastos do Estado, por meio do que ficou conhecido como “teto de gastos”.

A pandemia atingiu em cheio o setor de serviços, nosso maior contribuinte para o produto interno bruto (PIB). Essa paralisação parcial de alguns setores diminuiu sensivelmente a arrecadação de impostos, sobretudo em um país onde a carga tributária é carregada de impostos indiretos, que dependem sobremaneira da atividade comercial.

O quadro das contas públicas se agravou ainda mais com a decretação do estado de calamidade, aprovado pelo governo no intuito de garantir as condições financeiras mínimas a pessoas e empresas atingidas pela paralisação da atividade econômica.

O ponto é que, sem o auxílio emergencial, que colaborou, em alguma medida, para a degradação das contas públicas, a queda da atividade econômica medida pelo PIB, o volume de recursos arrecadados e o nível de emprego, por exemplo, teriam caído ainda mais, trazendo ainda mais problemas econômicos e de saúde pública.

Já existe um PDL no Senado que visa estender o estado de calamidade pública e o pagamento do auxílio emergencial até o mês de março de 2021. O que seria de fundamental importância, afinal de contas a pandemia e o estado de calamidade a ela relacionado, ainda não acabaram.

É completamente ingênuo imaginar uma retomada econômica aguda em 2021 sem a presença dos gastos do Estado. A primeira coisa que vem à mente de muitas pessoas é que se cairmos 5% este ano, é certo que subiremos pelo menos 5,3%, o que nos colocaria em patamar semelhante ao de antes da pandemia.

Pense no seguinte, você entra em uma piscina e submerge a fim de contar por quanto tempo você consegue ficar sem respirar. Na primeira tentativa você consegue incríveis 60 segundos, mas você não está satisfeito, acha que consegue mais e decide fazer uma segunda tentativa. Para isso, toma fôlego por dois minutos. Não é porque você ficou dois minutos fora da água que você conseguirá prender a respiração por dois minutos embaixo d’água.

As contas públicas continuarão se deteriorando em 2021 e além.

A política monetária pode nos salvar?

Desculpe acabar com as suas expectativas assim, na primeira frase, mas não, a política monetária não poderá reverter um quadro de crescimento potencialmente anêmico e uma degradação das contas públicas.

Antes de dizer o porquê de a política monetária não representar um instrumento poderoso de retomada da atividade econômica, é necessário dizer que o Banco Central do Brasil tem acertado em manter a taxa básica de juros em patamares muito baixos para a economia brasileira. Logo, a descrença na política monetária não vem de erros ou acertos da nossa autoridade monetária.

A potência da política monetária já é questionada por este economista que vos escreve e outros tantos colegas de profissão há muito tempo.

O primeiro ponto importante aqui já é um velho conhecido e esteve presente em muitos dos nossos textos em 2020. O spread bancário. É verdade que a forte queda da Selic nos últimos anos tem diminuído também o custo de crédito às pessoas e empresas, no entanto, a queda deste custo ao tomador de crédito é muito mais tímida e insuficiente para criar um aumento importante da demanda por recursos.

O segundo ponto está ligado ao primeiro, ponto que foi colocado na seção anterior. A expectativa de um crescimento abaixo do esperado para 2021 pode ser um grande balde de água fria para a potência da política monetária.

Os investidores não fazem aportes em investimentos produtivos se eles tiverem clareza de que haverá uma demanda pelo seus produtos ou serviços, nesse sentido o problema aumenta.

A taxa de desemprego, que já era muito elevada antes da pandemia, aumentou sensivelmente, sobretudo o volume de subempregos e desalentados, por exemplo. Além disso, parte das pessoas recolocadas ao mercado de trabalho tem voltado com rendimentos muito inferiores aos vistos em 2019.

De modo geral a massa salarial tem reduzido de forma importante e isso pode servir, de alguma forma, como inibidor de investimentos, não importando o nível da Selic.

Além disso, é sabido que a taxa básica de juros brasileira está abaixo da chamada taxa estrutural, ou seja, está em patamar que teoricamente afugenta investidores estrangeiros e cria um ambiente propício para o aumento da inflação. Sobre o aumento da inflação não nos parece uma preocupação válida em função da baixa atividade econômica.

Diante disso, o Banco Central já prevê aumentos na Selic para 2021 a fim de colocar a taxa básica em um ponto neutro, que respeite e estimule o movimento e ingresso de capitais no país.

E o câmbio?

Existem duas pressões sobre o câmbio neste momento. Uma que deve atuar em favor da moeda brasileira e outra em sentido contrário.

A primeira delas decorre do fato de a moeda brasileira ter sido uma das divisas que mais perdeu valor nos últimos dois anos. O movimento de desvalorização cambial visto em 2020 já estava presente no ano passado e isso levou a uma maxidesvalorização da moeda brasileira.

Neste sentido, houve fortalecimento da possibilidade de que a moeda brasileira atingisse valor abaixo dos R$ 5,00 reais. Refletindo uma espécie de ajuste, uma vez que as notícias sobre uma possível imunização da população brasileira possa ter início no primeiro mês de 2021.

Por outro lado, a degradação das contas públicas e os intensos embates políticos no país devem continuar atuando em favor do dólar americano. A depender do tamanho do desgaste político e da tração da economia em 2021, a moeda brasileira pode voltar a perder força intensa e rapidamente em relação à moeda americana.

Por enquanto, para a economia, 2021 não promete.

Veremos.

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