Instabilidade política e econômica e o reflexo no mercado de câmbio

por André Galhardo
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André Galhardo - De Olho no Câmbio

Visão Geral

Não é de hoje que a moeda brasileira apresenta um comportamento tão volátil quanto vem apresentando nas últimas semanais. De modo geral, um movimento de desvalorização gradual teve início a partir de 2019 e, desde então, o que se viu foi um processo crônico de desvalorização, com picos e vales vistos durante as medidas de distanciamento social.

Além da crise humanitária pela qual passa o planeta, outros fatores podem, e irão, influenciar o preço da moeda nacional nos próximos meses. Tornando, dessa forma, os cenários cada vez mais incertos e voláteis à medida em que estes fatores se aproximam.

Acompanhe nossa análise a seguir.

As eleições americanas

O primeiro dos fatores vem dos Estados Unidos, onde este ano acontece uma das eleições mais aguardadas dos últimos anos.

Uma vitória do republicano, Donald Trump poderia significar a intensificação dos conflitos comerciais empreendidos contra a China e outros parceiros comerciais relevantes, ao passo que uma vitória de Joe Biden, líder nas últimas pesquisas de intenção de votos, poderia significar uma mudança importante em algumas das políticas econômicas empreendida nos últimos anos.

De modo geral, ninguém acredita que Biden, caso eleito, mude as tratativas de modo muito radical. O teorema do eleitor mediano e o apego americano à hegemonia econômica nos fazem imaginar um conflito menos ruidoso, mas persistente nos próximos anos.

No entanto, caso eleito, Biden deve exercer outros tipos de pressão sobre o Federal Reserve e ter outro tipo de conduta em relação à política fiscal. O que pode levar o dólar a caminhos divergentes do que estamos vendo agora.

Portanto, tal como a reeleição de Trump, a vitória de Biden terá o poder de causar grandes volatilidades aos mercados financeiros e de câmbio.

Pra ajudar neste imbróglio, o ex-coordenador de campanha de Trump foi preso e solto após pagar fiança de USD 5 milhões. As acusações são de fraude financeira. 

O pacote de estímulo fiscal dos Estados Unidos

Um impasse entre a Câmara dos Deputados e o Senado americanos tem trazido bastante volatilidade à cotação das moedas de países subdesenvolvidos, sobretudo ao Real, que também está submetido a impasses fiscais domésticos.

Enquanto democratas, sob a liderança de Nancy Pelosi na Câmara dos Deputados não aceitam um pacote de estímulo menor que USD 2 trilhões, senadores republicanos, maioria no Senado, falam em um pacote de estímulo fiscal de, no máximo, USD 1 trilhão.

O Secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, também já deu declarações públicas criticando a postura dos democratas, que não aceitam fazer um acordo de menor monta para que o estímulo possa prosperar.

Este impasse tem mexido com os mercados financeiros porque os desafios a uma retomada mais robusta da economia americana têm se acumulado nos últimos dias. A ata do Federal Reserve, por exemplo, apontou que o cenário pessimista da autoridade monetária americana não é muito mais difícil de se concretizar que o cenário base.

índices de atividade econômica têm mostrado arrefecimento após algum processo de retomada visto nos meses de junho e julho.

Situação fiscal do Brasil e o desgaste do Ministro Paulo Guedes

No Brasil, uma miscelânea de fatores têm contribuído para que o real seja a moeda com maior percentual de desvalorização entre todas as demais moedas ditas emergentes.

Um dos principais pontos de atenção está no teto de gastos. É possível que, com a queda abrupta da arrecadação decorrente do enfraquecimento da atividade econômica e o volume de recursos despendidos na tentativa de atenuar os efeitos da crise coloquem em risco alguns instrumentos constitucionais como, por exemplo, o teto de gastos e a regra de ouro.

Diante de tal possibilidade, alguns membros do parlamento e o próprio presidente do Brasil disseram que uma flexibilização do teto de gastos não seria de todo ruim para a economia neste momento.

De forma resumida, no entendimento do mercado, uma situação em que o teto dos gastos seja revisto, flexibilizado ou qualquer coisa do tipo, poderia ter efeitos muito adversos sobre a situação fiscal do país, isso elevaria os prêmios de risco e, consequentemente, faria com que uma parte importante dos recursos, hoje no mercado de capitais, migrasse, de volta, para o mercado de títulos públicos, ocasionando uma queda importante no mercado financeiro.

O Ministro da Economia, fiel defensor do teto de gastos, se enfraquece a cada novo passo dado na direção de alguma possibilidade, por menor que seja, de discutir um movimento pela flexibilização deste instrumento.

Mais que um ministro importante, Paulo Guedes talvez seja o principal alicerce do governo neste momento. Seu enfraquecimento e rumores sobre uma possível saída, sobretudo depois da debandada de membros do alto escalão de seu Ministério, tende a trazer movimento mais agudos no mercado de capitais e de câmbio.

Impactos no câmbio

As eleições americanas, os pacotes de estímulos que demoram a sair e quando saem devem ser incompletos e algum arrefecimento da economia americana constituem um problema importante para as economias subdesenvolvidas.

No Brasil, além dos desafios internacionais, estamos envoltos a problemas domésticos importantes. A tendência é de agravamento do quadro fiscal e neste sentido, é possível um desgaste ainda maior do Ministro da Economia, Paulo Guedes.

Não está claro se o processo de desvalorização da moeda brasileira ocorrerá de forma indefinida, pela atuação do Banco Central e pelas resoluções momentâneas de alguns destes problemas que colocamos acima, pode haver movimentos fortes de valorização da moeda brasileira.

No entanto, neste momento, os contextos político e econômico influenciarão pela desvalorização da moeda brasileira.

Veremos.

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