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O novo tarifaço dos EUA trouxe um novo momento de forte tensão para o comércio entre Brasil e Estados Unidos. Depois de meses de investigação, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros — e ainda estuda uma segunda sobretaxa de 12,5% ligada a alegações de trabalho forçado. Somadas à tarifa temporária de 10% já em vigor, as duas propostas podem levar a taxação sobre parte das exportações do Brasil a 37,5%.
A decisão final é do presidente Donald Trump e tem prazo legal marcado para 15 de julho de 2026. Até lá, o governo brasileiro segue negociando prazos, exceções e possíveis saídas diplomáticas. Mas, independentemente do desfecho, o novo tarifaço já obriga exportadores, importadores e empresas de comércio exterior a revisar planejamento cambial, contratos e margens de lucro.
Neste artigo, você entende de onde vem essa nova rodada de tarifas, o que está em jogo para a economia brasileira, quais setores correm mais risco e como se preparar financeiramente para os diferentes cenários possíveis.
Novo tarifaço dos EUA: uma visão geral do que já sabemos e expectativas
A proposta atual tem origem em uma investigação aberta pelo USTR em julho de 2025, com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974 — mecanismo que permite a Washington investigar e punir práticas comerciais de outros países consideradas desleais ou prejudiciais aos interesses americanos.
Concluída em 1º de junho de 2026, a investigação apontou como “irrazoáveis” práticas brasileiras em seis frentes: comércio digital e sistemas de pagamento eletrônico como o Pix, tarifas preferenciais, proteção à propriedade intelectual, combate à corrupção, acesso ao mercado de etanol e combate ao desmatamento ilegal. Com base nessas conclusões, o USTR propôs a tarifa adicional de 25% sobre bens brasileiros, conforme anunciado oficialmente pelo representante comercial dos EUA.
Paralelamente, corre uma segunda investigação, sobre alegadas falhas no combate ao trabalho forçado, que pode resultar em uma sobretaxa extra de 12,5% para o Brasil e outros países.
A linha do tempo até agora:
- Julho de 2025: abertura da investigação sob a Seção 301.
- Fevereiro de 2026: a Suprema Corte dos EUA derruba tarifas anteriores aplicadas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), considerando que a legislação não autorizava o presidente a taxar produtos por conta própria.
- Em resposta à decisão da Corte, o governo americano recorre a outros mecanismos legais para manter uma tarifa adicional temporária de 10% sobre o Brasil, com base na Seção 122, válida até 24 de julho de 2026.
- 1º de junho de 2026: o USTR conclui a investigação da Seção 301 e propõe a tarifa de 25%.
- 6 e 7 de julho de 2026: audiência pública em Washington reúne representantes do setor privado brasileiro e americano.
- 15 de julho de 2026: prazo legal para a decisão final do presidente Trump.
Esse vaivém não é inédito. Em agosto de 2025, uma sobretaxa de até 50% chegou a ser anunciada por carta ao governo brasileiro, com motivação declaradamente política, e foi revertida meses depois. A diferença desta vez é o fundamento jurídico: a Seção 301 tem base técnica e histórico de aplicação mais consistente do que os decretos anteriores, o que reduz a chance de uma reversão judicial rápida.
Enquanto o prazo não se esgota, o governo brasileiro intensifica negociações diretas com o USTR, sob a liderança do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, na tentativa de reduzir o escopo da medida ou obter prazos adicionais de negociação.
O que muda para as exportações e importações brasileiras com as novas tarifas dos EUA?
A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras já vem perdendo espaço nos últimos anos, à medida que China, União Europeia e outros mercados asiáticos ganham peso na pauta de vendas do Brasil ao exterior. Um novo tarifaço tende a acelerar esse movimento.
O tamanho do impacto, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI):
- Caso as duas propostas — 25% e 12,5% — sejam confirmadas, 4.187 produtos brasileiros hoje exportados aos Estados Unidos passariam a sofrer uma alíquota combinada de 37,5%, ante os 10% cobrados atualmente.
- O valor das exportações afetadas chega a US$14,9 bilhões, segundo levantamento da entidade com base em dados do USITC (comissão de comércio internacional dos EUA).
- Desse total, 62% são bens intermediários — insumos usados por indústrias americanas em suas próprias cadeias produtivas, não produtos finais.
- A CNI projeta ainda uma retração estrutural de 0,5 a 0,6 ponto percentual no PIB brasileiro em 2026, equivalente a uma perda estimada de R$76 bilhões.
O efeito não fica restrito às exportações. Um dólar mais pressionado — reflexo da incerteza em torno do tarifaço — encarece insumos e equipamentos importados dos Estados Unidos, além de aumentar o custo de capital para empresas brasileiras endividadas em moeda estrangeira.
Como a tarifa eleva custos também para compradores e cadeias produtivas americanas, entidades como a CNI e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) têm reforçado esse argumento nas negociações com Washington — mais de 80% do comércio bilateral do setor de máquinas ocorre entre empresas coligadas, como matrizes e subsidiárias, o que reduz a margem para substituição rápida de fornecedores.
Setores que temem impactos: quem corre mais risco?
Nem todos os produtos brasileiros seriam afetados da mesma forma. O USTR já sinalizou uma lista de exceções, e a CNI mapeou os itens de maior exposição.
Setores com alto grau de dependência do mercado americano:
- Madeira e derivados, com destaque para o compensado de pinus — item em que o Brasil é praticamente o único fornecedor das importações americanas — e molduras de madeira.
- Siderurgia e metalurgia, incluindo ferro-gusa não ligado e hidróxido de alumínio.
- Papel e celulose, como a pasta química de madeira usada em processos de dissolução.
- Agronegócio e energia, com destaque para açúcar de cana bruto e etanol.
- Máquinas pesadas, transformadores elétricos e granito trabalhado, setores citados como estratégicos pela indústria nacional.
No total, o Brasil figura como principal fornecedor dos Estados Unidos em 11 desses produtos intermediários mapeados pela CNI.
Itens excluídos da proposta atual:
- Carne bovina, café, castanhas, banana, manga, mamão, abacaxi e outras frutas tropicais.
- Petróleo bruto, fertilizantes, produtos farmacêuticos, minerais estratégicos e terras raras.
- Aeronaves civis, motores e peças da indústria aeronáutica.
A exclusão de alimentos básicos e de commodities consideradas críticas busca evitar pressão adicional sobre a inflação americana e sobre cadeias de suprimento consideradas sensíveis pelos EUA.
Multinacionais com operação nos dois países também entraram na disputa. Empresas como a fabricante brasileira de motores elétricos WEG têm reforçado, junto ao USTR, o peso de sua presença industrial em solo americano — a subsidiária da companhia nos Estados Unidos emprega cerca de 2.300 trabalhadores — como argumento contra a aplicação da tarifa.
Como as empresas brasileiras de comércio exterior podem se preparar?
Independentemente do desfecho em 15 de julho, o cenário reforça uma lição recorrente para quem exporta ou importa a partir do Brasil: previsibilidade cambial e diversificação de mercado deixaram de ser diferencial e passaram a ser condição básica de sobrevivência.
Algumas frentes de preparação:
- Diversificação de mercados. Redirecionar parte das vendas para União Europeia e Ásia, blocos que vêm ganhando espaço na pauta exportadora brasileira, reduz a dependência de um único parceiro comercial sujeito a instabilidade política.
- Hedge cambial e travamento de taxas. Fechar antecipadamente a taxa de câmbio de operações futuras protege a margem de exportadores e importadores contra oscilações bruscas provocadas por decisões como essa. Empresas que ainda não usam esse tipo de proteção podem entender como funciona um contrato de câmbio e avaliar se faz sentido para a operação.
- Redução de custos operacionais em moeda estrangeira. Otimizar o recebimento de receitas de exportação e o pagamento de fornecedores no exterior ajuda a compensar parte do impacto de uma tarifa mais alta. É aqui que entra a Remessa Online: a plataforma oferece taxas de câmbio comercial mais competitivas e transferências mais ágeis do que bancos tradicionais para quem recebe em dólar ou paga fornecedores internacionais, reduzindo o custo de operações de comércio exterior num momento em que cada ponto percentual de margem importa.
- Revisão de contratos e Incoterms. Reavaliar quem arca com tarifas e taxas de destino em cada contrato de exportação pode evitar que o custo adicional recaia inteiramente sobre a empresa brasileira.
- Atenção aos tributos que já incidem sobre a operação. Vale também revisar, com o setor fiscal ou tributário da empresa, todas as taxas alfandegárias e etapas do despacho aduaneiro de exportação envolvidas na operação, para identificar onde ainda há espaço de otimização de custos.
O episódio também se insere em um movimento mais amplo de reorganização do comércio global, puxado por temas como nearshoring, friendshoring e disputa por minerais críticos — tendências já discutidas na cobertura da Remessa Online sobre os desdobramentos do G7 2026 para o câmbio e o comércio exterior brasileiro.
O novo tarifaço dos EUA já está em vigor?
Não. As tarifas de 25% e 12,5% são propostas do USTR, ainda sujeitas à decisão final do presidente Donald Trump, com prazo legal até 15 de julho de 2026. Atualmente, os produtos brasileiros já estão sujeitos a uma tarifa temporária de 10%, com base na Seção 122 da legislação comercial americana, válida até 24 de julho de 2026.
Quais produtos brasileiros ficam de fora da nova tarifa?
A proposta atual exclui itens como carne bovina, café, castanhas, frutas tropicais, petróleo bruto, fertilizantes, produtos farmacêuticos, minerais estratégicos, terras raras e peças da indústria aeronáutica.
Qual o tamanho do impacto financeiro estimado para o Brasil?
Segundo a CNI, cerca de US$14,9 bilhões em exportações podem ser afetados, com um efeito estimado de 0,5 a 0,6 ponto percentual de retração no PIB brasileiro em 2026.
Por que essa tarifa é diferente da aplicada em 2025?
A tarifa de até 50% anunciada em agosto de 2025 tinha motivação declaradamente política e foi revertida após a Suprema Corte dos EUA limitar o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) pelo presidente. A proposta atual usa como base a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, com fundamento jurídico mais consolidado.
Como uma empresa brasileira pode se proteger da volatilidade cambial gerada pelo tarifaço?
Mecanismos como o travamento antecipado da taxa de câmbio, a diversificação de mercados de exportação e o uso de plataformas com taxas de câmbio comercial mais competitivas para recebimentos e pagamentos internacionais ajudam a reduzir o impacto da instabilidade no fluxo de caixa da empresa.
O novo tarifaço dos EUA desenha um cenário desafiador para a economia brasileira, especialmente para setores de bens intermediários com forte dependência do mercado americano. Ainda que as negociações bilaterais sigam em curso e o histórico recente mostre espaço para recuos e revisões, empresas de comércio exterior não podem esperar o desfecho de 15 de julho para se preparar.
Diversificar mercados, proteger a operação contra a volatilidade cambial e reduzir custos de transferências internacionais são medidas que fazem sentido independentemente de qual tarifa prevalecer — e são o tipo de preparação financeira que separa empresas mais resilientes das que ficam reféns de cada nova rodada de tensão comercial.