O que pensam os chineses na guerra comercial

Não podemos negligenciar uma disputa com tamanha relevância e que coloca na mesma mesa de debate, as duas maiores potências mundiais. Por essa razão, hoje vamos falar sobre as negociações pela ótica da China. Afinal de contas, o que está passando pela cabeça dos chineses?

Pelo lado norte-americano, o estilo de negociação de Trump já está bem claro, não é mesmo?  Não há muito o que ser analisado, é uma soma de hostilidade com faça-do-meu-jeito-popular e pronto. E, claro, sem deixar de incluir que o seu foco está na reeleição em 2020. Muito simples.

Agora, os chineses sempre deixam os negociadores com uma pulga atrás da orelha. Se até mesmo os seus dados são divulgados na velocidade da luz – nenhum país calcula o PIB com tanta rapidez – imagina quando eles estão discutindo questões maiores.

Movimentos chineses na última semana

O que vimos na última semana, por exemplo, demonstra o quanto os chineses estão interessados e abertos na busca por um acordo. Um acordo que deve ser amplo, justo e que não os deixe ou que os faça parecer prejudicados. Aliás, uma vez perdida a sua confiança, não há volta. A própria ida da comissão chinesa a Washington – mesmo depois dos tweets um tanto quanto ofensivos de Trump e do anúncio de que haveria aumento das taxas sobre os produtos importados na sexta-feira, como de fato houve – demonstra o quanto a nação da Muralha está dando abertura.

Apenas esse ponto, indica que eles estão mais abertos do que no passado recente. Apesar de não terem deixado passar em branco, anunciaram mais tarifas aos produtos norte-americanos, mas para só no início de junho – este é outro sinal do tom bem mais ameno vindo do Oriente. Nada de desespero e afobação para decisões tão relevantes em apenas uma semana.

Pontos do debate entre China e Estados Unidos

Por ora, três pontos principais foram colocados na mesa para debate. Em primeiro lugar, a remoção de todas as taxas dos EUA, um acordo de metas pelos EUA para as compras chinesas (que de acordo com eles, seriam maiores do que a demanda doméstica chinesa) e por fim, Pequim está em busca de um texto mais equilibrado. De forma geral, Trump está exigindo mudanças fundamentais na forma como a economia chinesa cresce. Sem esquecer de colocar um outro assunto que, sem dúvidas, está no meio deste imbróglio: a propriedade intelectual.

No início deste ano, esse tema que tem gerado tantos impasses foi parar no museu. O Museu Nacional da China, na Praça da Paz Celestial, inaugurou uma exposição homenageando, entre outras coisas, a proteção à propriedade intelectual americana. Não deixa de ser o reconhecimento de como os EUA ajudaram a China a melhorar a sua própria propriedade intelectual em relação aos outros país. Diga-se de passagem, é o país que mais registra patentes, apesar de todas as acusações de “roubos” dos norte-americanos.

E, por fim, o último ponto na argumentação de que o gigante asiático vem optando por uma abordagem mais soft são os seus dados econômicos. Se os EUA estão não estão satisfeitos com o crescimento e forma de desenvolvimento chinês, eles mostram que nem estão tão bem assim.

China impactada pela guerra comercial

Os números chineses são questionados por diversos analistas, porque são muito rápidos em serem apurados. E o que os últimos números vêm escancarando é que os chineses estão sim sendo prejudicados pela guerra comercial (como Trump gostaria?).

Na última semana, foi reportado que as exportações recuaram 2,7% e as importações subiram 4%. Na noite de terça-feira (14), indústria chinesa cresceu 5,4%, ante o esperado de 6,5% e ainda desacelerando em relação à alta de 8,5% de março. Assim como o comércio varejista e os investimentos em ativos fixos também vieram abaixo de esperado.

Pode ser que o país esteja de fato sofrendo os efeitos, ou partindo para um lado mais “conspiracional” que os dados estejam levemente manipulados para agir como um gatilho para firmarem uma negociação mais rápido do que o esperado – sem ter que esperar 2020, como o Trump aparenta sinalizar. E pelo lado chinês, por que fariam concessões a um alguém que pode nem ser presidente por muito mais tempo?

O próximo capítulo está marcado para o fim de junho, no encontro do G-20 no Japão. Continue acompanhando por aqui, que iremos comentar todos os próximos impactos.