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O sistema Swift, que há mais de cinco décadas organiza a comunicação entre bancos para envio de dinheiro ao redor do mundo, anunciou em 9 de julho de 2026 que sua infraestrutura baseada em blockchain está pronta para uso real. Dezessete bancos de seis continentes vão testar transações ao vivo na nova rede — entre eles, o Itaú Unibanco, único representante brasileiro e da América Latina no grupo.
A novidade não é um anúncio de intenção. Depois de nove meses de desenvolvimento, o chamado Swift Ledger deixou a fase conceitual e entrou na etapa de uso inicial com movimentação real de recursos, conforme detalhado pela Exame.
Isso muda o tom da conversa: sai o debate sobre “se” a infraestrutura financeira tradicional vai adotar blockchain, e entra a pergunta sobre em que ritmo essa adoção vai se espalhar pelo sistema bancário global — e o que isso representa para quem envia dinheiro para fora do Brasil, um processo que, hoje, ainda passa por taxas e etapas que vale a pena conhecer antes de qualquer envio.
O que é a nova plataforma blockchain do Swift e como ela funciona?
O modelo atual de transferência internacional depende de mensagens trocadas entre bancos correspondentes, o que pode levar dias para liquidar operações mais complexas — sobretudo fora do horário comercial dos países envolvidos.
O Swift Ledger não substitui essa estrutura de imediato. Ele funciona como uma camada de orquestração para depósitos tokenizados: cada banco participante registra, em blockchain, uma representação digital do dinheiro que já mantém em seus próprios livros contábeis. Não se trata de criptomoeda emitida por terceiros, mas do dinheiro do próprio banco, tokenizado.
Na prática, isso permite:
- Movimentação de recursos 24 horas por dia, sete dias por semana, incluindo madrugadas e fins de semana;
- Adiantamento de valores ao cliente no exterior antes da conclusão da liquidação final, que segue ocorrendo pelos sistemas tradicionais;
- Registro criptografado e imutável das operações, reduzindo espaço para erro operacional e fraude.
Hoje, segundo comunicado oficial da Swift, 75% das transações já processadas pela rede chegam ao banco beneficiário em até dez minutos, muitas em poucos segundos. A promessa do novo ledger é estender esse padrão de velocidade para operações que hoje dependem de janelas bancárias específicas — parte do esforço da própria Swift, em conjunto com bancos participantes, para atender às metas do G20 de tornar pagamentos internacionais mais rápidos, baratos, transparentes e acessíveis.
A relevância do Itaú e do Brasil no consórcio dos 17 bancos
O Itaú é o único banco brasileiro — e o único da América Latina — no grupo que vai testar transações reais na nova rede. Ao lado dele estão nomes como Citi, HSBC, BNP Paribas, UBS, Wells Fargo, Standard Chartered, BNY, DBS, MUFG, Lloyds Bank, ANZ, OCBC, UOB, Mashreq, First Abu Dhabi Bank e FirstRand Bank.
A presença isolada do Itaú no grupo diz mais sobre o momento do banco do que sobre o Brasil como um todo. A instituição vem ampliando investimentos em tesouraria e liquidez transfronteiriça — em março de 2026, por exemplo, o Itaú BBA lançou o Connect Cash, plataforma para unificar a tesouraria de clientes na América Latina. A entrada no piloto da Swift segue essa mesma linha estratégica.
(Nota ao redator: aqui é importante moderar a narrativa sobre o Drex em relação à versão anterior deste briefing. A conexão direta “Itaú no Swift acelera o Drex” não se sustenta nos dados mais recentes — ver contexto abaixo.)
Vale um parêntese sobre o Drex, o real digital do Banco Central. Em dezembro de 2025, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, informou que a autarquia decidiu revisar o projeto depois de constatar que a arquitetura baseada em Ethereum Virtual Machine, com uso do Hyperledger Besu, não se mostrou adequada após quatro anos de testes.
Em fevereiro de 2026, o TCU também apontou, em relatório citado pela ConvergenciaDigital, que a tecnologia empregada não comprovou capacidade de atender requisitos de desempenho, escalabilidade e proteção de dados. Ou seja: o cenário do Drex hoje é de reavaliação técnica, não de integração iminente com redes como a do Swift. A conversa entre depósitos tokenizados privados e moeda digital de banco central é um tema a acompanhar, mas ainda em estágio inicial.
O impacto prático: o que muda nas transferências internacionais?
Para quem envia ou recebe dinheiro do exterior, os efeitos esperados de uma adoção mais ampla dessa tecnologia são:
- Menos intermediários na cadeia de liquidação, o que tende a reduzir custos operacionais repassados ao cliente final;
- Velocidade maior em operações complexas, que hoje levam de dois a cinco dias úteis e podem passar a ser processadas em minutos;
- Disponibilidade fora do horário bancário tradicional, eliminando a espera até a segunda-feira para transferências solicitadas no fim de semana;
- Rastreabilidade maior, com registro imutável que reduz erros de digitação e fraudes na cadeia de pagamento.
É importante frisar: por enquanto, o modelo continua dependendo da liquidação final pelos sistemas tradicionais. A promessa da Swift é reduzir atrito na etapa intermediária, não eliminar a infraestrutura bancária como um todo.
Para entender o tamanho do atrito que essa tecnologia tenta resolver, vale comparar com o modelo vigente: hoje, uma transferência internacional pode envolver tarifa Swift, IOF e outros custos que se somam ao longo da cadeia bancária, e o detalhamento completo de cada componente de custo ajuda a dimensionar onde a tecnologia da Swift pode, de fato, cortar etapas — e onde ainda não muda nada no curto prazo.
Tokenização de ativos: como isso se conecta aos investimentos tradicionais?
Tokenizar um ativo significa transformar algo real — um imóvel, um título público, uma commodity — em frações digitais negociáveis em blockchain. A camada de interoperabilidade que a Swift está construindo não se limita a dinheiro: a ideia declarada pela organização é que a mesma infraestrutura sirva de base para movimentação de outras formas de dinheiro digital regulado no futuro, incluindo aplicações como dinheiro programável e comércio agêntico.
No Brasil, o processo de democratização de investimentos por meio de fracionamento e digitalização já é familiar para quem investe em Tesouro Direto, onde é possível comprar frações de títulos públicos a partir de valores baixos. A tendência de tokenização de ativos aponta para uma extensão desse princípio: caminhos mais diretos para que investidores comprem títulos e outros ativos emitidos fora do país, sem depender de tantas camadas de intermediação.
Não é a primeira vez que o Tesouro Nacional se move na direção de mais flexibilidade e disponibilidade contínua para o investidor: é a mesma lógica por trás do Tesouro Reserva, que permite resgates a qualquer hora do dia, inclusive aos fins de semana — um paralelo direto com a promessa de operação 24/7 que a Swift está testando agora no câmbio internacional. Para quem quer se aprofundar nas modalidades de títulos públicos disponíveis hoje, o guia completo sobre os tipos de Tesouro Direto detalha rentabilidade, tributação e simulações.
O que isso tem a ver com a corrida das stablecoins
Um dado que não estava no radar até o fim de junho de 2026 ajuda a explicar a pressa da Swift em colocar sua blockchain para funcionar: a concorrência das stablecoins por espaço nas transferências internacionais está mais acirrada. Ainda em junho, o próprio Itaú, ao lado do Bradesco e de mais de cem instituições financeiras globais, se uniu à criação de uma stablecoin em dólar batizada de Open USD.
No Brasil, os números ajudam a dimensionar o apetite por esse tipo de ativo: no ano anterior, brasileiros declararam R$ 506 bilhões em criptomoedas à Receita Federal, dos quais 80% em stablecoins, segundo levantamento da consultoria Fintrender. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por sua vez, já sinalizou consulta pública sobre tokenização como um dos pontos centrais da agenda regulatória deste ano.
O recado por trás do movimento da Swift é claro: bancos tradicionais não querem ficar de fora da migração para ativos digitais, e preferem competir com uma infraestrutura própria — mais alinhada às regras de compliance que já operam — do que ceder terreno a stablecoins emitidas fora do sistema bancário regulado.
Perguntas frequentes
Por que o Swift resolveu criar uma plataforma blockchain própria?
Para evitar a fragmentação do mercado financeiro global. Com o surgimento de várias blockchains e Moedas Digitais de Bancos Centrais (CBDCs) diferentes, o Swift se posiciona como a “ponte de conexão” universal entre todas elas, mantendo sua relevância global.
O que a presença do Itaú nesse projeto muda para o investidor brasileiro?
A presença do Itaú coloca o Brasil na vanguarda das discussões regulatórias e tecnológicas de pagamentos globais. Isso acelera a integração das nossas inovações locais, como o Drex, ao comércio internacional de forma nativa e segura.
As transferências internacionais vão ficar mais baratas com essa tecnologia?
Sim. Ao utilizar a tecnologia blockchain para automatizar e encurtar o processo de liquidação de transações (reduzindo a necessidade de bancos correspondentes), os custos operacionais caem, o que tende a se refletir em tarifas mais baratas para o consumidor final.
A liberação da rede blockchain da Swift para uso real, com 17 bancos e o Itaú como único representante brasileiro, marca uma etapa concreta na aproximação entre a infraestrutura financeira tradicional e as finanças digitais. O modelo ainda depende dos sistemas de liquidação já existentes e não substitui, por ora, a espinha dorsal do câmbio entre bancos correspondentes.
Mas a direção é clara: transferências internacionais mais rápidas, disponíveis fora do horário bancário e com menos etapas manuais no meio do caminho. Para quem acompanha o câmbio de perto — seja por comércio exterior, seja por investimento —, vale monitorar como essa tecnologia evolui nos próximos meses, especialmente à medida que o piloto avança para transações em maior escala.