“Os dólares não param de ir embora”, por André Galhardo

Não são só os problemas políticos domésticos e a pandemia que têm influenciado a cotação do Real. Saiba mais na análise do economista André Galhardo.

O ano de 2020 tem sido desafiador para o Brasil e todos os seus pares da América Latina. Para além das questões de saúde pública, os países chamados agora de emergentes enfrentam intensa volatilidade cambial e econômica que certamente cobrarão um preço elevado nos próximos meses.

Depois de registrar a maior saída de dólares em quase quarenta anos em 2019, o Brasil está, de novo, com importante fuga de capitais em 2020. Dos nove primeiros meses deste ano, em apenas duas oportunidades o saldo do movimento de câmbio contratado foi positivo.

Neste contexto, quais movimentos podemos esperar para os últimos três meses deste ano e a quais riscos estamos submetidos?

Acompanhe nossa análise a seguir.

O movimento dos dólares

De janeiro a abril deste ano, o saldo do movimento de câmbio no Brasil havia ficado negativo em US$12,73 bilhões. O resultado do primeiro quadrimestre, com quatro meses seguidos de saldos mensais negativos, foi fortemente influenciado pelo número do mês de março.

Foi justamente no mês de março que municípios e estados começaram a implementar as medidas de distanciamento social na tentativa de conter a propagação do novo coronavírus. Naquele mês, o saldo ficou negativo em US$6,56 bilhões.

A despeito dos resultados positivos de maio e agosto, US$3,1 bilhões e US$602 milhões, respectivamente, o saldo acumulado em nove meses está negativo em US$18,7 bilhões. Na comparação com igual período do ano passado, o saldo de 2020 é, até aqui, 44% “mais negativo”.

A situação brasileira só não é pior porque os saldos mensais de câmbio contratado para fins comerciais tem sido persistentemente positivos. De janeiro a 9 de outubro deste ano, o saldo contratado para fins comerciais apresentou-se positivo em pouco mais de US$33,7 bilhões.

É importante destacar que os resultados comerciais têm sido expressivamente positivos em função da desaceleração da atividade econômica nacional e do aumento de exportações de commodities, no entanto, para fins de saldo de câmbio contratado, esses recursos têm ajudado a amenizar a conta.

Impacto na economia doméstica

Alguns dos resultados dessa saída maciça de dólares do Brasil já são nossos conhecidos. Basta olhar para o comportamento dos preços do arroz, do óleo de cozinha ou das carnes, por exemplo.

Com o aumento do clima de incerteza econômica, o real tem perdido bastante valor para as moedas que compõem a cesta do FMI.

Essa desvalorização da moeda brasileira tem servido de grande estímulo para as nossas exportações, sobretudo dos produtos básicos como, por exemplo: soja, arroz, óleo de soja, carnes e leite.

A exportação de produtos agrícolas cresceu, em média, 15% de janeiro a setembro deste ano, na comparação com igual período do ano passado. Com destaque para o aumento das exportações de arroz, que cresceram 172%, de mel (+44%), produtos hortícolas (+38%), algodão (+36%), sementes (+36%) e soja (+28%).

O resultado desta combinação, como já havia escrito mais acima, está aí, a olhos vistos.

Segundo o Instituto Brasileiro de Economia (IBRE- FGV), a inflação medida pelo IGP-DI acumulada em 12 meses encerrou o mês de setembro com uma variação de 18,44%. O IGP-M, no mesmo período registrou inflação de 17,94%.

Ambos indicadores foram influenciados pelo aumento dos preços no atacado, onde o impacto da desvalorização cambial foi, e está sendo, sentido com maior magnitude. O IPA-DI – componente do IGP-DI que mede a variação dos preços no atacado – registrou aumento de 26,03% nos doze meses encerrados em setembro deste ano.

Tanto IGP-DI como IGP-M registraram as maiores variações anuais desde setembro de 2003.

Conjuntura econômica internacional

É importante lembrar que, mesmo sabendo que o principal contributo para a forte desvalorização da moeda brasileira nos últimos meses tenha sido a pandemia, fatores políticos domésticos também têm contribuído para a fuga de capital do país. A prova disso vem do volume de recursos que deixou o Brasil em 2019.

No entanto, não são só os problemas políticos domésticos ou a pandemia que têm influenciado a cotação do real.

A eleição americana, marcada para o dia 3 de novembro, também tem trazido desequilíbrios ao Brasil e aos demais países subdesenvolvidos.

A reeleição de Trump ou a vitória do Democrata Joe Biden, significam rumos diferentes para a economia global, ainda que tudo não passe, até aqui, de especulação.

Além da disputa pela cadeira da Casa Branca, o ambiente de campanha tem impedido que Democratas e Republicanos cheguem a um denominador comum, no que diz respeito a aprovação de um novo pacote de estímulo fiscal para este ano.

Entre muitas idas e vindas, essa semana o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, já disse que não haverá qualquer avanço neste assunto antes do pleito do mês que vem.

Além dos imbróglios político e econômico na economia americana, uma segunda onda de contágio pelo novo coronavírus na Europa ocidental têm trazido dor de cabeça aos investidores internacionais.

O importante aumento de casos em Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha e Reino Unido exigirão, como já tem sido feito, novas e duras medidas de distanciamento social, o que certamente trará mais volatilidade ao mercado de ações e de câmbio.

Impactos no câmbio

Com relação a saída de dólares do Brasil, ela não é necessariamente um problema. Em um ambiente de finanças altamente globalizadas, como o que vivemos, é impossível conter alguns movimentos. 

O problema é que no Brasil essa saída de dólares tem se mostrado crônica e, o volume de recursos que tem deixado o país nos últimos meses somam quantias expressivas.

E tudo isso acontece em um ambiente desafiador tanto do ponto de vista da economia e política domésticas,  quanto no que diz respeito à conjuntura internacional.

Está claro para nós que boas notícias podem trazer o dólar de volta para baixo dos R$5,00 muito rapidamente, mas também está claro que os sinais políticos e econômicos emitidos nas últimas semanas tendem a trazer mais desvalorização para a moeda brasileira.

Antes do término das eleições americanas, do controle de contágio pelo novo coronavírus na Europa e da retomadas da agenda de reformas no governo brasileiro, a tendência é de desvalorização da moeda brasileira, como tem sido, desde meados de 2019.

Veremos!