Política monetária e rumores para 2019

No último dia 12/12, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) divulgou a sua decisão sobre os rumos dos juros no Brasil. A Selic foi mantida em 6,5% ao ano, em linha com as expectativas do mercado. O comunicado divulgado após a decisão trouxe uma série de elementos importantes que embasaram a decisão.

Em linha com o comunicado, a Ata do Copom divulgada no dia 18/12 reforçaram tais elementos e trouxeram mais detalhes importantes. Uma das variáveis-chave foi a sinalização de que com o atual ritmo de recuperação da economia a inflação tende a ficar abaixo do esperado.

O índice oficial de preços (IPCA), já havia fechado o ano de 2017 abaixo do limite inferior da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Em 2018, o índice custou a apresentar resultados mais fortes. Cabe lembrar que a meta foi fixada em 4,5%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual. Para 2019 e 2020, a meta foi reduzida para 4,25% e 4%, respectivamente. A margem de tolerância não foi alterada.

O copom diz que debateu mais uma vez sobre a conveniência de sinalização sobre o futuro da Selic. Entretanto, todos os membros do comitê concordaram que a atual conjuntura recomenda manutenção de maior flexibilidade para condução da política monetária. Essa decisão implica abster-se de fornecer indicações sobre seus próximos passos.
No documento, contudo, o Copom diz que no cenário com taxa Selic constante em 6,5% ao ano e taxa de câmbio em R$ 3,85, as projeções para a inflação ficam em torno de 3,7% e 4% para 2019 e 2020. As estimativas estão abaixo da meta de inflação que deve ser perseguida pelo Bacen.

Na ocasião da divulgação do Índice de Atividade do Banco Central (IBC-Br), foi possível notar que apesar de algumas condições conjunturais favoráveis à retomada de um crescimento econômico mais forte (inflação controlada e juros mais baixos), fatores como a qualidade da recuperação do mercado de trabalho – baseada em empregos de qualidade inferior – e o spread bancário elevado, impedem tal retomada mais robusta do consumo e, por conseguinte, da economia.

A definição da Selic continua dependendo da evolução da atividade econômica, dos riscos e das projeções e expectativas de inflação e, portanto, deve permanecer em 6,5% no próximo ano. E são justamente os riscos que chamam a atenção na avaliação do Copom. Dois deles em especial: as reformas na economia brasileira e a conjuntura internacional.

Sobre as reformas, há um consenso entre economistas que elas são essenciais para colocar a economia nos eixos. A aprovação das reformas não será para colocar o Estado como indutor do crescimento, mas apenas para que o estoque da dívida não aumente ainda mais. Assim, conforme a ata do Copom, a continuidade do processo de reformas e ajustes na economia brasileira “é essencial para a manutenção da inflação baixa no médio e longo prazos, para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação sustentável da economia”.

Sob a ótica da conjuntura internacional, a ata do Copom foi clara ao afirmar que “o cenário externo permanece desafiador para economias emergentes, sendo os principais riscos aqueles associados ao aumento da aversão a risco nos mercados internacionais, à normalização das taxas de juros em algumas economias avançadas e às incertezas referentes ao comércio global”
Diversos aspectos pesam contra a Selic e, especialmente, contra o Real. A guerra comercial, o problema do orçamento italiano e seu dilema com a Comissão Europeia, os problemas na França, o desenrolar do Brexit, a degradação da economia da Argentina e a preocupação que ronda o nível de endividamento privado dos países do leste asiático são apenas alguns desses fatores.

Mas o processo de normalização das taxas de juros nos EUA e em outras economias é um ponto de forte tensão. No dia 19/12, o Federal Reserve (Fed, banco central estadunidense), por meio do Fomc (Federal Open Market Committee, equivalente ao nosso Copom), optou por elevar a taxa de juros dos EUA.

O Fomc elevou os juros em 0,25 ponto percentual (da faixa de 2% a 2,25% para a faixa de 2,25% a 2,5% ao ano), o que era esperado pelo mercado. O grande impacto, contudo, ficou por conta das sinalizações para o próximo ano. Dada a situação da conjuntura internacional e as incertezas que rondam a economia estadunidense, o mercado não contava com sinalizações de novas altas de juros para 2019. Entretanto, o Fomc sinalizou mais 2 altas.

A sinalização preocupa, pois há um temor de que os EUA passarão por uma desaceleração econômica mais forte em meio às tensões comerciais com a China, ao enfraquecimento do impulso dado pelos cortes tributários e ao aperto das condições monetárias para as empresas. Nesse sentido, os juros mais elevados podem trazer mais força para uma possível recessão entre o final de 2019 e 2020.
A reação do mercado foi imediata. No Brasil, o índice da bolsa de valores (Ibovespa), que registrava fortes ganhos de quase 2% ao longo do dia, registrou uma queda de mais de 1% de olho na decisão de política monetária dos EUA. Após o susto, o Ibovespa se recuperou, mas o dólar, por sua vez, registrava queda e seguiu nessa tendência. O Banco Central precisou intervir no mercado com swaps cambiais para conter uma queda mais forte do dólar.

O pronunciamento do chairman do Fed, Jerome Powell, apesar de ter revertido o susto no mercado acionário brasileiro, derrubou os mercados estadunidenses, com Dow Jones e S&P500 caindo 1,5% na reta final da sessão.

Todo esse contexto torna o cenário para o câmbio ainda mais nebuloso. O Copom foi prudente em não sinalizar a trajetória da Selic, mantendo certa cautela com o balanço de riscos. O Fomc foi desafiador, especialmente por peitar o presidente Donald Trump com sua sinalização, uma vez que Trump já havia criticado a ação do Fed.

Devemos lembrar que, com a manutenção do cenário base, a combinação das variáveis externas, concentradas nos movimentos da Guerra Comercial, e internas, como a perspectiva das reformas, apontam para a manutenção de câmbio desvalorizado. Assim sendo, se a crise esperada pela maior parte dos analistas se confirmar, o cenário de um real desvalorizado se acentua.

Em resumo, a política monetária adotada pelos Bancos Centrais do Brasil e dos Estados Unidos mostram que há uma expectativa de esfriamento do ritmo de crescimento da economia global, ademais, as expectativas em relação à Selic, que giravam em torno de 8% ao final de 2019 passou para 6,5%, enquanto que nos Estados Unidos espera-se apenas dois movimentos nos juros no ano que vem, menos que os três esperados antes da reunião desta semana.