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Apesar do fortalecimento global do dólar, a dinâmica recente dos mercados cambiais revela um descolamento relevante nas economias emergentes: o real e outras moedas latino-americanas exibiram apreciação consistente, sustentadas por juros reais elevados, fluxo produtivo crescente e uma correção técnica após a volatilidade de dezembro. Esse movimento contrasta com a pressão geopolítica que tem enfraquecido as moedas conversíveis, reforçando que, no caso brasileiro, a combinação de desinflação, estabilidade monetária e saldo comercial robusto tem atuado como um colchão de proteção, atraindo capital e favorecendo a normalização do câmbio.
Quer saber mais sobre Brasil, EUA, Zona do Euro e Reino Unido? Acompanhe a seguir os desdobramentos destes e outros acontecimentos na edição #363 do “De Olho no Câmbio”.
Real x dólar
Começamos a semana com o dólar cotado a R$5,4099 na segunda-feira (05/jan), um nível 2,8% inferior à abertura da semana anterior (29/dez). Ao longo da semana, a moeda norte-americana perdeu força frente ao real, e o dólar abriu o pregão desta sexta-feira (09/jan) cotado a R$5,3881, patamar 1,0% inferior à abertura da sexta-feira anterior (02/jan). Entre as aberturas desta sexta (09/jan) e da segunda-feira da semana anterior (29/dez), vimos uma valorização do real em relação ao dólar de 3,2%.
Apesar do aumento do dólar em relação à maioria das moedas fortes, com o DXY subindo de forma consistente ao longo desta semana, o real e a maioria das divisas latino-americanas registraram valorização em relação à moeda dos Estados Unidos.
A valorização do dólar em relação às chamadas moedas conversíveis pode ser explicada, em parte, pela deterioração do cenário geopolítico. Depois das operações militares na Venezuela, o presidente dos EUA falou abertamente que uma operação na Colômbia não seria má ideia. Complementarmente, Trump desafia a integridade da OTAN ao insistir na “anexação” da Groenlândia, região autônoma da Dinamarca.
As incertezas em relação ao comportamento errático de Donald Trump não foram suficientes para interromper o ciclo de valorização das divisas não-conversíveis, como o real e o peso colombiano, por exemplo. A valorização do real pode ser explicada pela taxa de juros, no maior nível em cerca de 20 anos, e por uma espécie de correção, depois da desvalorização registrada ao longo de dezembro.
Complementarmente, os dados de inflação mais recentes sugerem continuidade do processo de desinflação no país. O IGP-DI de dezembro registrou variação bastante moderada (+0,10%), sugerindo, em conjunto com outros indicadores de preços por atacado, menor repasse de inflação aos consumidores na primeira metade de 2026.
O IPCA de dezembro, em linha com as expectativas, endossa o processo de desinflação. A variação de dezembro, de +0,33%, reduziu o IPCA anual a 4,27%, abaixo do limite superior da meta de inflação.
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Real x euro
O euro abriu o pregão de segunda-feira (05/jan) cotado a R$6,3554. Na abertura desta sexta-feira (09/jan), a cotação foi de R$6,2775. Portanto, observou-se uma valorização do real frente ao euro de aproximadamente 1,2% no período, refletindo o enfraquecimento do euro no mercado doméstico.
Em relação ao dólar, a moeda europeia apresentou leve enfraquecimento nesta semana, interrompendo a tendência de valorização observada anteriormente. A cotação do euro em dólar passou de US$1,1721 na segunda-feira (05/jan) para US$1,1645 nesta sexta-feira (09/jan). Assim, observou-se uma desvalorização aproximada de 0,6% do euro, isto é, são necessários menos dólares para adquirir um euro.
A moeda brasileira também registrou valorização em relação ao euro ao longo desta semana. O movimento ocorre em meio a um processo de correção depois de uma súbita desvalorização registrada em dezembro. Como parte desta desvalorização teve origem especulativa, o mercado agora corrige o movimento, apoiado por um maior fluxo de capital em direção ao Brasil.
A desvalorização do real registrada em dezembro está ligada em parte à leitura do mercado de que um movimento semelhante ao que foi registrado em dezembro de 2024 poderia acontecer mais uma vez.
O que se viu foi uma saída muito mais contida de recursos, combinada com um forte resultado comercial no mês passado e fluxos cada vez mais intensos de capital produtivo no país, componentes que suavizaram e até evitaram movimento semelhante ao de 2024.
Na Europa, dados preliminares de inflação mostram arrefecimento dos preços na leitura anualizada. A inflação cheia da Zona do Euro agora encontra-se exatamente na meta do Banco Central Europeu (2%), e pode abrir caminho para novos cortes de juros por lá ao longo de 2026.
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Real x libra esterlina
A libra esterlina abriu o pregão de segunda-feira (05/dez) cotada a aproximadamente R$7,2990, nível superior ao registrado na abertura desta sexta-feira (09/dez), cerca de R$7,2374. Portanto, houve valorização do real de aproximadamente 0,8% em relação à moeda britânica ao longo da semana, fortalecimento da libra no mercado doméstico.
Em relação ao dólar, a moeda inglesa perdeu força no decorrer da semana, mantendo a tendência de desvalorização observada na semana anterior, e abriu esta sexta-feira (09/jan) cotada a US$1,3436 após ter iniciado a semana cotada a US$1,3468, uma desvalorização de 0,2% da moeda britânica em relação ao dólar.
Os ganhos do real não se limitaram ao dólar e ao euro. A divisa brasileira engatou a segunda semana de ganhos contra a libra esterlina ao abrir o pregão desta sexta cotada a R$7,24 por libra. O enredo em relação à moeda britânica é o mesmo: enquanto a libra perdeu força em relação ao dólar, refletindo a deterioração geopolítica, o real avançou sobre as duas.
A força do real, conforme destacado, vem da taxa de juros. Apesar de a Selic estar no mesmo nível há muitos meses, a taxa real de juros, quando descontamos os efeitos da inflação, segue em elevação. O IPCA, quem diria, fechou o ano de 2025 dentro do intervalo de tolerância da meta, aos 4,27%, nível quase 2% abaixo da média dos últimos 15 anos.
Esse aumento dos juros reais, provocados pela teimosia do Copom e pela desaceleração consistente dos preços ao consumidor, tem ajudado a garantir fluxos de capital em direção ao Brasil, o que tem reforçado esse movimento de correção depois da volatilidade registrada em dezembro.
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Perspectivas
Apesar dos sinais inequívocos de desaceleração da atividade econômica e da inflação no país, o Copom pode optar, mais uma vez, pela manutenção da taxa de juros na reunião de política monetária marcada para este mês. Ainda que o Copom tenha coragem de iniciar o ciclo de cortes de juros na primeira reunião de 2026, o movimento não deve ser grande o suficiente para tirar o Brasil do ranking dos maiores pagadores de juros reais do mundo.
Em outras palavras, a taxa de juros, mesmo que reduzida, ainda deve servir de vetor para a valorização do real ao longo das próximas semanas.
A projeção de valorização do real, no entanto, deve ser interpretada com cautela, uma vez que os desdobramentos geopolíticos mais recentes podem reforçar a aversão ao risco e o nível de incerteza, o que, por sua vez, é prejudicial às moedas menos líquidas que o dólar, como o real.
Seguimos de olho.