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A Comissão Europeia aprovou o acordo comercial com o Mercosul nesta sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, encerrando um ciclo de 26 anos de debates. A decisão representa um passo decisivo para a criação de uma das maiores zonas de livre comércio do planeta, incluindo o mercado brasileiro de vinhos e chocolates: vinhos europeus poderão ficar mais acessíveis, enquanto chocolates premium devem chegar em maior variedade.

Atualmente, o Mercosul paga 27% de imposto sobre vinhos europeus e 20% sobre chocolates. O acordo reduz essas tarifas gradualmente até chegar a zero — em 8 a 12 anos no caso dos vinhos e 10 a 15 anos para chocolates.

Continue a leitura para entender os impactos econômicos e os próximos passos para a implementação definitiva deste pacto.

Países da União Europeia aprovam acordo com o Mercosul após décadas

A aprovação provisória ocorreu durante uma reunião de embaixadores em Bruxelas, onde a maioria dos 27 Estados-membros votou favoravelmente ao texto. Para avançar, o acordo precisava do apoio de pelo menos 15 países que representassem 65% da população do bloco. Diplomatas ouvidos por agências europeias sinalizaram que esse critério foi cumprido, apesar da resistência de alguns governos.

O governo da Alemanha celebrou publicamente o avanço e classificou o tratado como um marco, afirmando que se trata de “um importante sinal da nossa soberania estratégica e capacidade de ação”, segundo comunicado oficial de Berlim. Com o aval do Conselho, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve assinar o documento oficialmente na próxima segunda-feira (12), no Paraguai, consolidando mais um passo rumo à implementação.

A Itália desempenhou papel determinante para destravar a votação. O país revisou sua posição anterior após a Comissão Europeia propor o aumento de recursos destinados aos agricultores italianos. Roma passou a considerar o gesto como um “passo positivo e significativo”, segundo avaliação da primeira-ministra Giorgia Meloni.

Com uma população de cerca de 59 milhões de habitantes, o voto italiano era visto como decisivo por diplomatas, funcionando como o “fiel da balança” para o consenso.

Resistência francesa e preocupações do setor agrícola europeu

A França reafirmou sua oposição ao tratado, defendendo que os benefícios econômicos do pacto seriam limitados para a Europa. O presidente Emmanuel Macron declarou que, “embora a diversificação comercial seja necessária, os benefícios econômicos do acordo UE-Mercosul serão limitados para o crescimento francês e europeu.

Além dos franceses, países como Irlanda, Hungria e Polônia mantiveram posições contrárias, compartilhando preocupações sobre os impactos no setor agropecuário local. O primeiro-ministro irlandês, Simon Harris, reiterou que “não apoia o acordo da forma como foi apresentado”, ampliando o bloco de resistência. A Bélgica optou por se abster.

Sindicatos agrícolas europeus têm organizado protestos contra a possibilidade de concorrência com produtos latino-americanos mais baratos ou submetidos a padrões ambientais diferentes.

Em resposta, o Parlamento Europeu aprovou salvaguardas que permitem suspender vantagens tarifárias caso as importações cresçam acima de determinados limites, protegendo produtores locais de possíveis surtos de oferta oriundos do Mercosul.

Benefícios esperados com o acordo comercial com o Mercosul para o Brasil

O acordo prevê a redução gradual de tarifas de exportação e importação entre as duas regiões, além da criação de padrões comuns para regulação, investimentos e comércio de bens. Para o Brasil, maior economia do Mercosul, o tratado abre acesso a um mercado consumidor estimado em 451 milhões de pessoas.

Entre os impactos econômicos mais imediatos, o acordo pode baratear vinhos europeus e ampliar a oferta de chocolates premium no Brasil, à medida que as tarifas forem sendo eliminadas ao longo dos próximos anos. Internamente, o governo brasileiro tem priorizado a assinatura, mesmo diante das salvaguardas impostas pelos europeus — uma decisão estratégica para ampliar a diversificação comercial do país.

Quando estiver em pleno vigor, o acordo unirá blocos que somam um PIB estimado em US$ 22 trilhões, criando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. O próximo passo institucional exige que o Parlamento Europeu ratifique o texto para que ele passe a valer integralmente.

Vinhos europeus podem ficar mais baratos no Brasil

A Europa concentra grandes produtores globais e oferece vinhos de qualidade a valores muito baixos. Como explica Roberto Kanter, professor da FGV:

Com as tarifas atuais, é melhor você importar um vinho de 15 euros do que de cinco. […] A tarifa do imposto acaba igualando todos eles em uma faixa semelhante de preço.” – Roberto Kanter, FGV

Com a queda progressiva do imposto, esse cenário tende a mudar. Vinhos europeus de entrada e intermediários poderão competir com rótulos chilenos e argentinos — que hoje dominam o mercado nacional devido à produção em escala e acordos comerciais mais vantajosos.

Kanter reforça que a mudança beneficia diretamente o consumidor:

O consumidor brasileiro vai ser beneficiado. Ele vai passar a ter acesso a uma oferta muito maior de vinhos de qualidade média, a preços extremamente competitivos.” – Roberto Kanter, FGV

A redução não será imediata, mas tende a ampliar a variedade e tornar o consumo mais acessível.

Chocolates premium devem aumentar, mas sem ficar mais baratos

O impacto sobre o setor de chocolates segue outra lógica. O Brasil já possui uma produção nacional robusta e diversificada, o que significa que a redução de tarifas não deve resultar em queda imediata de preços. 

Segundo o professor Roberto Kanter, da FGV, o acordo não altera substancialmente o custo desses produtos porque o cacau e a estrutura tributária envolvidos na fabricação nacional já são locais, portanto o benefício tarifário não se aplica ao chocolate produzido no país.

Apesar disso, Kanter ressalta que o acordo pode transformar o mercado sob outro aspecto: o da disponibilidade. Para ele, o principal efeito não é o barateamento, mas o acesso ampliado, já que marcas europeias premium — hoje ausentes ou restritas às grandes capitais — poderão finalmente entrar no mercado brasileiro e se expandir para novos pontos de venda.

Em relação aos importadores, o professor explica que a redução da tarifa deve favorecer diretamente esse segmento. Ele argumenta que, com custos menores, as empresas terão mais margem de lucro e condições de ampliar seus canais de distribuição, o que pode facilitar a chegada de novas marcas e a consolidação de portfólios premium.

Ainda assim, Kanter adverte que é preciso cautela: chocolates de primeira linha não devem sofrer grandes mudanças nos preços finais. O professor enfatiza que o posicionamento de mercado dessas marcas continua sendo o principal fator determinante, e não o imposto de importação. 

Ou seja, uma eventual ampliação da oferta não muda o fato de que produtos de luxo continuarão restritos às faixas de renda mais altas — embora possam se tornar mais presentes nas prateleiras brasileiras.

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Resumindo

O que prevê o acordo entre UE e Mercosul?

Redução de tarifas e criação de área de livre comércio.

Quais países foram contra o tratado?

França, Polônia, Irlanda, Hungria e Áustria votaram não.

Quando o acordo será assinado?

A assinatura é esperada para segunda-feira (12), no Paraguai.