Guerra comercial alivia câmbio, mas Europa preocupa

Há sinais de que a recessão se aproxima da Europa

A Guerra Comercial deu uma trégua, pero no mucho. A Huawei segue no olho do furacão. Instabilidades políticas assolam o Reino Unido e colocaram a Libra em uma verdadeira montanha russa. A recessão pode vir da Zona do Euro. E essa deve ser nossa maior preocupação.

Acompanhe. 

Real x Dólar

O Dólar comercial abriu a semana cotado a R$ 4,1444 e fechou o pregão de segunda-feira (2) cotado a R$ 4,1871 – uma depreciação do Real de pouco mais de 1%. As intervenções do Banco Central no câmbio  parecem ter surtido efeito, uma vez que o Real foi se fortalecendo na semana. 

É difícil dizer com toda certeza se as ações do Bacen foram assertivas, pois a Guerra Comercial trouxe algum alívio ao mercado nesta semana e, portanto, menos pressão ao Real e outras moedas emergentes.

Atente-se a expressão “algum alívio”, pois, no final das contas, a Guerra Comercial permanece ativa. Exemplo disso é a declaração de Donald Trump na quinta (5), sobre a situação da Huawei.

Para o presidente estadunidense, o embargo aos produtos chineses produzidos pela gigante tecnológica Huawei é questão de segurança nacional. 

A alegação de Trump é de que a empresa chinesa utiliza seus produtos para espionar os EUA e captar inadvertidamente dados da população americana.

Enquanto essa incerteza se prolonga, a moeda americana saiu de R$ 4,1444 na segunda-feira e abriu o pregão de sexta-feira (6) negociada na casa dos R$ 4,0955. O Real acumula uma apreciação de -1,18%. 

Real x Euro

The recession is coming para a Zona do Euro. Apesar da narrativa bem menos interessante do que Game of Thrones, os europeus não tem conseguido encontrar um caminho que os afaste de uma recessão.

A indústria alemã, a maior economia do bloco, segue registrando péssimos resultados mês após mês. O último dado divulgado registrou queda de 2,7% nas encomendas à indústria em julho ante o mês anterior. Analistas previam baixa menos acentuada, de 1,5%.

Ainda há esperança para o bloco. A indicada para assumir o Banco Central Europeu, Christine Lagarde, presidente do FMI, vislumbra uma política monetária estimulativa que pode retoma o crescimento da região.

Em meio a dados ruins, há elementos que podem mesmo trazer esperança. O resultado preliminar do PIB da Zona do Euro do 2º trimestre veio em linha com as expectativas do mercado. O crescimento acumulado no ano é de 1,2%. Não trouxe surpresas, nem boas, nem ruins.

Nesse contexto, o Euro abriu a semana cotado a R$ 4,5564, mas perdeu alguma força frente ao Real, chegando a ser cotado a R$ 4,4909 nas primeiras horas do pregão de sexta-feira (6). Na abertura do pregão, o Euro era cotado a R$ 4,4971, uma variação semanal de aproximadamente -1,3%. Em relação ao Dólar americano, o Euro perdeu 0,4% do valor era semana.

Real x Libra Esterlina

A Libra Esterlina está em queda após um rali intenso  em que apreciou mais de 2% em relação ao dólar. O movimento é fruto da decisão do Supremo Tribunal  britânico que determinou que a suspensão do Parlamento pelo primeiro-ministro Boris Johnson foi legal.

Em relação ao Real, a Libra abriu a semana cotada a R$ 5,0372 e até a quarta-feira (4) estava cotada a R$ 5,0175. A decisão do Supremo levou a Libra para R$ 5,0627 na quinta-feira. No pico da semana, a moeda britânica chegou a alcançar R$ 5,0926.

O premiê britânico ainda enfrenta forte oposição política aos seus planos de tirar o Reino Unido da União Europeia de qualquer forma em 31 de outubro, mesmo sem acordo – o Hard Brexit.

Um projeto de lei que exige que Johnson solicite à UE uma prorrogação de três meses do prazo do Brexit recebeu consentimento da coroa britânica e foi aprovado.

Nesse contexto, após os intensos movimentos da Libra Esterlina, a moeda voltou à trajetória de desvalorização, sendo negociada no patamar de R$ 5,0129 logo após a abertura do pregão de sexta-feira (6). Na semana, a apreciação do Real em relação à moeda britânica é de 0,48%.

Perspectivas

Há poucos indícios de que os conflitos comerciais entre EUA e China findaram logo. E os resultados já começam a aparecer nos dados da economia americana e chinesa.

De todo modo, o ponto relevante é que o aprofundamento do conflito é fonte constante de instabilidade para o dólar e de depreciação para o Real.

Outros pontos importantes dizem respeito ao desempenho negativo da produção industrial alemã e seus reflexos na economia europeia, que aproxima a região de uma recessão.

A perspectiva piora um pouco mais quando o Brexit entra em cena, trazendo ainda mais instabilidade. Nesse contexto, com a economia brasileira sem grandes surpresas, devemos observar uma clara tendência de depreciação do Real.

O único game changer nesse momento é a ação do Banco Central do Brasil, fornecendo algum alívio para o Real de modo mais consistente.

Seguimos de olho.

André Galhardo é economista-chefe da Análise Econômica Consultoria, professor e coordenador universitário nos cursos de Ciências Econômicas. Mestre em Economia Política pela PUC-SP, possui ampla experiência em análise de conjuntura econômica nacional e internacional, com passagens pelo setor público.