Getting your Trinity Audio player ready...

Os dados de julho divulgados nesta sexta-feira pegaram o mercado de surpresa. Depois de meses de sinais mistos, os Índices PMI dos Estados Unidos e da Zona do Euro vieram mais fortes do que o esperado, indicando que a atividade privada nas duas maiores economias do mundo ganhou fôlego, não perdeu.

Para quem exporta do Brasil, essa notícia não é neutra. Ela mexe com a demanda pelos produtos brasileiros, com o fluxo de dólares e euros que entra no país e com a forma como o câmbio se comporta nas próximas semanas.

Mas a leitura completa do cenário exige cautela. A mesma semana que trouxe PMIs mais fortes também trouxe novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e uma escalada do conflito no Oriente Médio, dois fatores que pesam diretamente sobre o caixa de quem vende para fora. A seguir, veja o que os números realmente dizem e como se posicionar diante desse quadro misto.

Os dados de hoje: o que mostra o Índice PMI de julho nos EUA e na Europa? 

Nos Estados Unidos, o PMI Composto da S&P Global subiu para 53,6 pontos em julho, ante 51,9 em junho. É o maior nível desde novembro do ano passado. O avanço foi puxado pelo setor de serviços, que acelerou para a maior expansão em oito meses, enquanto a indústria seguiu crescendo, porém em ritmo mais lento.

Do lado das contratações, as empresas voltaram a admitir pela primeira vez em três meses, e a confiança empresarial chegou à maior alta em oito meses. Por outro lado, os prazos de entrega dos fornecedores pioraram no ritmo mais forte em quase quatro anos, reflexo do conflito no Oriente Médio, e a inflação de custos subiu para a maior taxa em 14 meses.

Na Zona do Euro, o resultado surpreendeu ainda mais. O PMI Composto saltou de 50,0 em junho para 51,9 em julho, maior patamar em cinco meses e muito acima da expectativa de analistas ouvidos pela Reuters, que previam algo perto de 50,3. Foi o primeiro mês de expansão da atividade privada da região depois de quatro meses seguidos de contração.

  • PMI de Serviços da Zona do Euro: subiu de 49,4 para 51,6, maior nível em cinco meses.
  • PMI Industrial da Zona do Euro: avançou de 51,4 para 52,0, maior nível em três meses.

Os detalhes da divulgação de hoje podem ser conferidos diretamente na página oficial de PMIs da S&P Global e na cobertura da Reuters sobre a retomada da atividade na Zona do Euro.

O que é Índice PMI e por que o mercado parou para olhá-los hoje?

O Purchasing Managers’ Index, ou Índice de Gerentes de Compras, é construído a partir de entrevistas mensais com executivos de compras de empresas privadas. Cada entrevistado responde se a atividade da sua empresa melhorou, piorou ou ficou estável em relação ao mês anterior.

A leitura é simples. Acima de 50 pontos, o setor está em expansão. Abaixo de 50, está em contração. Exatamente em 50, não houve mudança.

Os Índices PMI globais mais acompanhados pelo mercado separam dois blocos: o PMI Industrial, que mede fábricas e produção de bens, e o PMI de Serviços, que mede desde bancos até companhias aéreas e consultorias. A combinação dos dois gera o PMI Composto, usado como termômetro antecipado do PIB, semanas antes dos números oficiais de crescimento saírem.

Por que isso importa tanto para quem está fora do mercado financeiro? Porque os PMIs chegam antes dos dados oficiais de crescimento. Quando eles surpreendem, como aconteceu hoje, o mercado reprecifica juros, câmbio e expectativas de consumo quase em tempo real.

O que a retomada do consumo nos EUA e na Europa significa para o produto brasileiro

Em teoria, a lógica é direta. Se a atividade em serviços e indústria acelera nos EUA e na Europa, as empresas dessas regiões compram mais insumos, matérias-primas e bens intermediários, incluindo os que vêm do Brasil.

Só que a leitura fina dos dados desta sexta-feira pede um freio nesse otimismo automático, por dois motivos.

O primeiro é que, na Zona do Euro, a recuperação foi puxada por serviços domésticos, não por comércio exterior. Segundo a Reuters, os pedidos de exportação da região seguiram em queda em julho, ainda que no ritmo mais lento desde março de 2022. Ou seja, a economia europeia melhorou por dentro, mas ainda compra menos do resto do mundo.

O segundo motivo é tarifário, e afeta diretamente o Brasil. Nesta mesma sexta-feira entraram em vigor novas tarifas americanas de 10% e 12,5% sobre produtos de dezenas de parceiros comerciais, incluindo o Brasil, que já operava sob uma tarifa de 25% imposta em investigação comercial anterior. Na prática, mesmo que a demanda americana esteja mais aquecida, parte da vantagem de preço do produto brasileiro pode ser corroída pela tarifa.

Setores mais expostos a esse duplo efeito, PMI mais forte de um lado e tarifa mais pesada do outro, incluem:

  • Agronegócio e commodities agrícolas, sensíveis ao apetite global por matéria-prima.
  • Bens intermediários e insumos industriais, que dependem diretamente do ritmo da manufatura americana e europeia.
  • Setores com pauta concentrada nos EUA, mais expostos à nova tarifa.

Para quem já trabalha com hedge cambial e planejamento de recebíveis, este é o momento de revisitar a estratégia. Nosso guia sobre hedge cambial e como montar uma estratégia de proteção detalha os instrumentos disponíveis para travar taxa e proteger margem em cenários como este.

Câmbio: dólar e euro reagem aos PMIs em meio à tensão geopolítica

A entrada de dólares e euros no Brasil depende, em grande parte, do volume exportado. Menos pedidos do exterior significam menos moeda forte convertida em reais, o que por si só já pressiona o câmbio.

Mas hoje o quadro é mais complexo. Os PMIs vieram fortes, o que normalmente sustenta o dólar e o euro frente a moedas emergentes. Ao mesmo tempo, o petróleo acumula alta de quase 40% neste mês, com a reintensificação do conflito no Oriente Médio, o que também empurra a inflação global para cima e mantém os bancos centrais em alerta.

O resultado prático é volatilidade, não uma direção única. Nesta sexta-feira, o dólar à vista operava próximo da estabilidade frente ao real, oscilando perto de R$ 5,08, depois de fechar a quinta-feira em alta de 0,63%. É esse tipo de vaivém, somado à incerteza tarifária, que mais corrói a margem de quem recebe em moeda estrangeira e converte em reais sem planejamento.

Para entender como esses movimentos afetam desde o exportador até o investidor pessoa física, vale revisitar o conteúdo sobre como a taxa de câmbio impacta investimentos, incluindo os internos.

Como o exportador brasileiro pode se proteger nesse cenário misto

Diante de PMIs fortes, tarifas mais altas e câmbio volátil ao mesmo tempo, a resposta não é prever qual força vai vencer. É reduzir a exposição às três ao mesmo tempo.

Diversificação de mercados. Depender de um único destino de exportação, especialmente um sujeito a tarifas específicas, amplia o risco. Distribuir a carteira de clientes entre regiões diferentes reduz o impacto de uma medida como a tarifa anunciada nesta semana. Nosso conteúdo sobre o novo tarifaço dos EUA e seus impactos nas exportações brasileiras detalha os setores mais afetados e caminhos de mitigação.

Gestão de risco cambial. Travar a taxa de conversão antecipadamente, via contrato de câmbio, protege a margem contra oscilações como a vista nos últimos dias entre alta e estabilidade do dólar.

Eficiência operacional no recebimento internacional. Em um trimestre de volume mais instável, cada ponto percentual gasto em tarifas bancárias e intermediários pesa mais. Centralizar o recebimento de exportação em uma plataforma com taxas mais competitivas do que os bancos tradicionais ajuda a preservar o lucro operacional justamente quando ele está mais espremido. A Remessa Online oferece conta para pessoa jurídica com recebimento internacional pensada para esse tipo de operação.

Diversificação do caixa parado em reais. Parte do caixa que não será usado no curto prazo também pode ser protegida da volatilidade cambial e da inflação por meio de renda fixa pública. Nosso guia sobre Tesouro Direto explica as modalidades disponíveis para quem quer manter reserva com segurança enquanto acompanha o cenário externo.

O que significa um PMI acima de 50?

Sinaliza que a atividade daquele setor, industrial ou de serviços, está em expansão em comparação ao mês anterior. Abaixo de 50, está em contração.

Os PMIs de julho mostraram desaceleração ou aceleração?

Aceleração. Tanto o PMI Composto dos EUA (53,6, maior nível em oito meses) quanto o da Zona do Euro (51,9, maior nível em cinco meses) vieram acima do esperado e acima do mês anterior.

Por que os Índices PMI globais afetam empresas no Brasil mesmo com resultado positivo?

Porque a composição da alta importa. Na Zona do Euro, por exemplo, a recuperação foi puxada por serviços domésticos, e os pedidos de exportação seguiram em queda. Além disso, a mesma semana trouxe novas tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros, o que pode neutralizar parte do ganho de demanda.

Como a combinação de PMIs fortes e tarifas mais altas afeta o dólar no Brasil?

Gera volatilidade em vez de uma direção única. PMIs fortes tendem a sustentar dólar e euro, enquanto a tensão geopolítica e as tarifas aumentam a incerteza, o que se traduz em oscilações mais bruscas na cotação frente ao real.