O que vem por aí, segundo o Banco Central do Estados Unidos

FED está com dificuldade em estimar a velocidade com que a economia sairá deste imenso buraco no primeiro semestre do ano

André Galhardo - De Olho no Câmbio

Visão Geral

O Federal Reserve System (FED) comunicou em ata o que se espera da economia norte americana para os próximos meses. O cenário base – o mais propenso a acontecer – é bastante sombrio, mas o banco não acha que o cenário pessimista seja muito menos factível. 

Dada a magnitude registrada da queda na atividade econômica americana, o FED está com dificuldade em estimar a velocidade com que a economia sairá deste imenso buraco no primeiro semestre do ano.

publicidade:
Confira cotação do dólar, do euro e demais moedas mundiais em tempo-real nas páginas de cotação do Remessa Online – Transferências Internacionais.

Portanto, o comunicado do banco central estadunidense foi recebido pelo mercado de maneira áspera. Isso nos permite imaginar o impacto dessa avaliação para o mundo todo. E o Brasil não está de fora.

Acompanhe nossa análise a seguir.

Mercado de trabalho

O impacto do novo coronavírus na economia dos Estados Unidos ainda é inestimável, ademais, ainda não se sabe por quanto tempo teremos a economia americana como epicentro da covid-19.

Segundo o Departamento de Trabalho estadunidense, nas últimas nove semanas mais de 38 milhões de cidadãos solicitaram o seguro-desemprego. A taxa de desemprego, que em fevereiro deste ano estava em 3,5% – menor nível desde dezembro de 1969 – alcançou 14,7% no mês de abril. 

Trata-se da maior taxa mensal desde o começo da série histórica, em 1948. Na crise de 2008, conhecida como uma das piores crises financeiras da história, a pior taxa de desemprego foi alcançada em outubro de 2009, 10%.

Os rendimentos continuam subindo, ao menos de forma marginal, mas a massa salarial caiu de forma significativa, portanto, a desintegração do mercado de trabalho terá um impacto significativo e duradouro na economia dos Estados Unidos.

Alguns membros do FED já disseram que se espera uma taxa de desemprego próximo aos 5% apenas no final de 2021.

Nível de preços

Observar o nível de preços é um exercício importante, não só pela razão óbvia que este guarda com o nível de consumo de pessoas e empresas, mas pela relevância que o indicador tem na tomada de decisão da autoridades monetárias. Quanto mais baixo os preços neste momento, menor pode ser a taxa básica de juros.

Segundo o Escritório de Estatística do Trabalho (BLS), a taxa de inflação ficou negativa em 0,8% no mês de abril. Trata-se da maior queda mensal desde dezembro de 2008. Com o dado de abril, a inflação acumulada em 12 meses ficou em 0,3%.  Em janeiro deste ano a variação anual da inflação sem ajuste sazonal era de 2,5%, acima da meta de inflação do Banco Central norte americano, 2%.

É inegável o impacto da propagação da covid-19 nos preços aos consumidores americanos. Apesar disso, é importante ressaltar que o indicador foi influenciado principalmente pela queda nos preços dos combustíveis.

Só em abril deste ano, o preço da gasolina ao consumidor final caiu mais de 20%, depois de ter caído mais de 10% em março e cerca de 3,5% em fevereiro. A queda da inflação só não é mais pronunciada em decorrência do aumento dos preços dos alimentos. 

A exemplo do Brasil, a corrida aos supermercados trouxe desequilíbrios nos preços dos produtos alimentícios. Em abril deste ano, a variação desta categoria ficou em +3,5%. Em janeiro deste ano a variação havia sido de +0,1%, após estabilidade no mês de dezembro.

Investimentos e produção industrial

A despeito da resiliência dos investimentos residenciais neste primeiro trimestre, os investimentos empresariais encontram-se em situação delicada.

Segundo o próprio FED, os dados de investimentos residenciais apresentaram certa força diante da crise. Mas é importante destacar que tais investimentos já mostravam desgaste ao final do primeiro trimestre deste ano.

Nos investimentos em ativos reais a queda foi mais pronunciada. As comparações trimestrais, que já eram marginalmente negativas nos últimos trimestres, foram ampliadas pelos efeitos da crise que estamos enfrentando.

O movimento de diminuição do investimento foi fortemente influenciado pelo recuo na produção de petróleo em solo americano, dada a queda no preço da commodity, decorrente do atrito entre Rússia e Arábia Saudita.

O FED ainda aponta que a produção industrial referente ao mês de abril caiu ao menor nível desde fevereiro de 2010. A variação mensal, de 11,2%, é a maior queda registrada em toda a história americana. 

Em novembro de 1929 – ano da quebra da Bolsa de Nova Iorque – as maiores quedas foram de 4,9% e 4,4%. Em agosto de 1945, ano de registro da segunda maior diminuição mensal da produção industrial, o recuo foi de 10,4%. Todos os grupos de mercado apresentaram variações negativas, destaque para a indústria de equipamentos, cujo recuo mensal foi de 17,3%, após ter recuado 8% em março. 

Perspectivas

Do ponto de visto histórico, não há nenhum paralelo com as quedas que estamos acompanhando agora. Isso dificulta sobremaneira as estimativas por parte do banco central estadunidense.

Os membro do FED avaliam ser possível um novo surto de coronavírus no final deste ano, o que jogaria ainda mais para baixo a atividade econômica global e, consequentemente, os preços.

É quase certo para a instituição que o cenário pessimista dos seus membros seja tão factível quanto o cenário base. O que denota bastante pessimismo da autoridade monetária americana em relação aos próximos trimestres.

Essa avaliação, de que a situação econômica não deve melhorar nos próximos semestres, tende a renovar os movimentos agudos de queda a partir do final deste ano. Tal perspectiva reforça a necessidade de uma política monetário ultra-expansionista, ou seja, taxa básica de juro baixa ao menos até o final de 2021.

Esse aumento de liquidez financiado pelo banco central dos Estados Unidos deve condicionar mais relaxamento monetário para o Brasil. O Comitê de Política Monetária (Copom) deve realizar novo corte de 0,75% na reunião do mês que vem, e não estão descartados mais cortes de juros nas reuniões seguintes.

De modo geral, os sinais para o câmbio continuam ambíguos. O aumento de liquidez por parte do FED condiciona valorizações pontuais da nossa moeda, enquanto a diminuição da nossa taxa básica de juro cria alguma fuga de capital estrangeiro do país.

A depender do cenário que irá se concretizar, a situação pode ficar bastante difícil e, apesar das valorizações recentes da nossa moeda, ainda não estão descartados movimento mais agudos de desvalorização do real nos próximos meses.

Veremos.