Títulos para 2050 testam apetite de risco no exterior

Títulos para 2050 testam apetite de risco do investidor estrangeiro

Glenda Ferreira avalia como a emissão de títulos do Tesouro Nacional com vencimento para 2050 ajudam a testar o apetite de risco do investidor internacional em relação ao Brasil

Os projetos que estavam aguardando a aprovação da reforma da Previdência ser aprovada para começarem a rodar, agora estão saindo do papel. Além dos projetos entregues esta semana pelo ministro Paulo Guedes e outras pautas como a reforma administrativa e, quem sabe, até a tributária começarem a andar, o Tesouro Nacional anunciou a emissão de títulos no exterior.

A princípio, você pode nem ver uma relação direta com a aprovação da reforma, porém um olhar só um pouco mais apurado, revela que o governo não poderia tomar essa iniciativa sem ter algum respaldo de que está trabalhando para melhorar a situação brasileira. Essa semana, por exemplo, anunciou a emissão de título público internacional que vence em 2050.

O título Global 2050

O novo título será com vencimento daqui 30 anos, em 14 de janeiro de 2050, o Global 2050. Ademais, haverá nova emissão do título de 10 anos já existente, o Global 2029, que tem vencimento em 30 de maio de 2029. E também recompra de títulos com vencimentos entre 2027 e 2047.

Em março deste ano, o Tesouro havia feito uma operação similar quando ofertou o título Global 2029. Como o Brasil perdeu o grau de investimento, a taxa que conseguiu não saiu das melhores, foi de 4,7% ao ano e spread de 215,8 pontos sobre o título americano de 10 anos.

Já desta vez, a história foi um pouco diferente. A demanda superou em três vezes o volume ofertado no caso do papel de 30 anos e em cinco vezes no título de 10 anos, mesmo sendo a primeira vez que o Tesouro optou por ofertar no mercado externo dois títulos de prazos diferentes de forma simultânea.

A taxa do título com vencimento em 2029 saiu a 3,8% (cupom de 4,5%), com spread de 203 pontos-base acima do título norte-americano. Foi a menor taxa desde que o Brasil perdeu a nota de grau de investimento e mostra uma melhora para nós. É ponto para o nosso país que já volta a ter taxas bem próximas a antes da perda da nota de investimento.

Os objetivos desta emissão de títulos

O Tesouro precisou esperar a aprovação da reforma para ter algum respaldo porque se tentasse antes, poderia até ser um fracasso e não ter interesse estrangeiro ou a taxa sair em um patamar muito ruim.

Por isso que esta nova emissão, além de ser uma forma de captação de recursos no exterior, também é um teste do apetite do investidor estrangeiro ao Brasil.

Os objetivos informados pelo Tesouro são outros, e que também não deixam de fazer sentido, é para que as empresas que desejam captar recursos fora do país possam ter um ponto de referência mais claro. A ideia é melhorar a eficiência e consolidar benchmarks da curva denominada em dólares. Além do que, as operações são feitas para melhor gerenciar o perfil da dívida, alongando prazos e reduzindo custos.

Mas é importante lembrar que o valor que será captado irá para as nossas reservas internacionais. E, novamente, não será para reforçar o quanto detemos em dólar, mas sim será para ser utilizado como este referencial. Como o dinheiro que tem como direção as reservas sempre atraem atenção, o comunicado foi muito bem feito.

Mas não deixa de abrir caminho para que este recurso possa ser utilizado, em breve, para que o câmbio seja contido. Em especial, se temos o dólar com tendência altista. Pode não ser o objetivo anunciado, mas os investidores já estão de olho nas possibilidades de sua utilização e como pode ser útil ter um reforço nas reservas internacionais daqui em diante.

Glenda Mara Ferreira é Economista, bacharel em Relações Internacionais com experiência e planejamento financeiro. Atualmente é especialista em investimentos na Levante e acabou de inaugurar um Instagram sobre finanças pessoais e economia:@glendamaraf.