A impotência da política monetária, por André Galhardo

por André Galhardo
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Enquanto a pandemia se agrava no Brasil já não restam alternativas aos brasileiros a não ser contabilizar os mortos e infectados e sentir na pele a deterioração dos principais indicadores macroeconômicos.

Será muito complicado ver a inflação chegar próximo aos 7% enquanto se vê abertamente a queda do ritmo da atividade econômica. Tão difícil quanto sentir no bolso o importante aumento dos preços, será a dura tarefa de tentar ajustar nossos problemas com ferramentas inadequadas para o momento.

A intenção deste texto não é gerar mais ansiedade e tristeza para quem o lê, apenas reforçar que a situação inspira muito cuidado e que não fazer um diagnóstico correto da conjuntura pode agravar o nosso já combalido cenário econômico.

Acompanhe nossa análise a seguir.

Estamos sem saída

Neste momento, o principal contribuinte da inflação brasileira é a desvalorização cambial. A prova disso vem de muitos lugares, mas podemos exemplificar de forma simples apenas observando o comportamento dos índices chamados de IDPs, da Fundação Getúlio Vargas.

O IGP-M, por exemplo, tem rondado a casa dos 30% acumulados em um único ano. Trata-se da maior variação anual desde 2003. 

Essa discrepância entre o IGP-M e o IPCA, que atualmente encontra-se em 5,2% em termos anuais, acontece porque o IGP-M é composto de preços no atacado, ao consumidor e ao setor de construção, sendo o primeiro o mais importante deles com 60% de toda a variação. Neste caso, desequilíbrios cambiais são captados mais rapidamente pelos IGPs, refletindo o impacto na base da cadeia produtiva.

Alguns economistas têm atribuído o aumento da taxa de câmbio à nossa situação fiscal, mas isso não faz nenhum sentido neste momento.

  • Em primeiro lugar, o volumoso déficit das contas públicas brasileiras registrado em 2020 é reflexo do ambiente pandêmico e não do abandono das contas públicas por parte do Estado.
  • Em segundo lugar, a deterioração das contas públicas foi uníssona no último ano, fazendo triplicar, por exemplo, o déficit dos Estados Unidos para cerca de dois PIBs brasileiros só em 2020.

Não que as contas públicas não sejam importantes, eu não seria leviano a ponto de dizer isso, no entanto, se configura como problema maior neste momento a degradação da moeda brasileira no cenário internacional e para isso não existe muita alternativa, uma vez que ela tem respondido às instabilidade políticas, tão recorrentes desde 2014, mas agravada nos últimos dois anos. Como as instabilidades políticas parecem intermináveis, estamos sem saída. 

Não adianta mexer na Selic ou criar um novo imposto, neste cenário, de grande volatilidade do ambiente político, a vida do Real seria duríssima, mesmo com as contas públicas no azul.

E por falar em Selic…

Banco Central, a panela e o explosivo

Como será que o Banco Central pretende segurar uma inflação de custos com aumento da taxa básica de juros?

Quando um Banco Central decide praticar uma política monetária mais restritiva, ele pretende com isso fazer acontecer duas coisas: desestimular o consumo por meio do aumento do custo do crédito e diminuir os investimentos. O aumento do rendimento dos títulos públicos encarecem os empréstimos e se  tornam mais atrativos que os investimentos em ativos fixos. Esses dois resultados diminuem o nível de emprego e tendem a controlar a inflação de demanda, que não é o nosso caso.

Claro que o Banco Central sabe de tudo isso e acredito que a ideia central seria mandar um recado ao mercado e à população de modo geral, o de que não será condescendente com uma inflação que não esteja dentro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.

Mais ainda, a autoridade monetária brasileira poderia alegar que o aumento da taxa de juros neste momento agiria justamente sobre o câmbio. Ora, a melhora de rendimento dos títulos brasileiros atrairia mais capital para o país e este fluxo contribuiria com a valorização da nossa moeda. Bem, na teoria faz sentido. Na prática, não!

O aumento esperado de 0,5% será ineficaz para atrair investimentos e além disso trata-se do remédio errado para combater uma inflação de custos. Como se não bastasse, ainda contribuirá em alguma medida para o aumento do endividamento público.

Em outras palavras, o Banco Central avistou uma bomba com alto poder destrutivo e agora fará de tudo para impedir que a sua explosão não seja problemática para a economia nacional. Sua ação, neste momento, seria equivalente à tentativa de abafar uma grande explosão colocando uma panela sobre este artefato.Totalmente ineficaz.

Prognóstico

Como já foi dito em parágrafos anteriores, a situação não é muito animadora para o Brasil.

Estamos em uma espécie de círculo vicioso interminável. O ambiente político deteriora o valor da moeda brasileira, o que por sua vez estimula as exportações de modo a fazer “faltar” produtos para o mercado doméstico ao mesmo tempo em que encarece o custo das matérias-primas e produtos importados pelo nosso país.

Além disso, o aumento expressivo do número de mortos e de infecções pelo coronavírus tende a afugentar investidores estrangeiros, afinal de contas, se no Brasil a pandemia tende a acabar mais vagarosamente que em outras partes do mundo, então não faz sentido investir aqui.

E por fim, mas não menos importante, as ferramentas que aparentemente nós vamos usar são inadequadas para corrigir os nossos problemas. A taxa de juro não trará o controle inflacionário, e a preocupação intempestiva com a situação fiscal pode deprimir ainda mais o nível de atividade econômica do país.

Veremos.

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