Breve alívio internacional

alívio internacional ajuda moedas dos países emergentes

Essa semana os dados políticos internacionais agiram em favor das moedas dos países emergentes. Mesmo quando os dados econômicos mostraram problemas, as expectativas em torno da correção destes, trouxe alívio momentâneo aos mercados financeiro e de câmbio.

Por quanto tempo teremos essa tranquilidade?

Expectativas chinesas melhoram

O Chefe do poder executivo de Hong Kong avisou que fará a retirada formal do projeto de Lei que previa a extradição de cidadãos de Hong Kong para a China, onde a justiça é controlado pelo Partido Comunista Chinês (PCC). A expectativa é de que a retirada definitiva da propositura traga algum alívio nas manifestações que já duram meses.

As manifestações têm potencial destrutivo em função da fase que a China atravessa. Com desaceleração a olhos vistos, o que a China menos precisa neste momento é de instabilidade política.

Em âmbito econômico,  dados sobre o índice de gerente de compras (PMI) apontou para avanço da atividade do setor de serviços no mês de agosto o que afasta, por enquanto, o temor de uma queda mais robusta da atividade chinesa já para o ano de 2019. A melhoria nas expectativas econômicas chinesas contribuem para trazer um alívio internacional.

É importante ressaltar que dados positivos, ainda que marginalmente, são recebidos com muito entusiasmo pelo mercado financeiro, uma vez que muitas agências apontam para uma crise mais forte no biênio 2019-2020. A agência de risco Moody’s, por exemplo, estima que a chance de uma crise até o ano que vem é de 67%.

Brexit e o acordão italiano

Brexit e Itália vieram à tona novamente essa semana, mas desta vez as notícias foram de alívio ao mercado financeiro e de câmbio.

A Itália parece ter encontrado um bom termo na disputa que envolve o Movimento 5 Estrelas, Partido Democrático, Matteo Salvini, Giuseppe Conte e outros e isso ajudou nas tensões no continente europeu.

Por outro lado, em mais um capítulo da exaustiva novela do Brexit, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, sofreu duas derrotas importantes esta semana. A primeira delas praticamente afasta uma chance de saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo, o chamado Hard Brexit, ao qual o primeiro-ministro é profundo defensor.  A segunda derrota de Johnson está ligada ao veto da solicitação de eleições antecipadas para o dia 15 de outubro.

Deste modo, dissipam-se, ao menos por enquanto,  alguns elementos de instabilidade presentes na União Europeia, também por enquanto. Ou seja, a Europa deu a sua contribuição para o cenário de breve alívio internacional.

Reforma da Previdência

Por aqui, avançam as questões ligadas às reformas da previdência de tributária, dando uma lufada de ar na desgastada relação do executivo e do parlamento com outros órgãos e instituições, nacionais e internacionais.

O texto da reforma da previdência, aquele já aprovado na Câmara dos Deputados, avançou no Senado Federal e já foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Apesar de alguma desidratação da Reforma original, conduzida pelo texto que corre paralelamente, denominado PEC paralela, a mesma PEC paralela faz a inclusão de pontos relevantes no que diz respeito às economias do governo federal. Enquanto a PEC da reforma da previdência foi desidratada em aproximadamente R$ 60 bilhões pelo texto da PEC paralela, é neste novo texto que estão sendo incluídos pontos importantes deixados de fora pela Câmara dos Deputados como, por exemplo, a reforma da previdência de Estados e Municípios que, sozinhos somam mais de R$ 340 bilhões ao montante já conquistado pelo texto vindo da Câmara.

A expectativa é que o texto da reforma da previdência seja votado no plenário do Senado no dia 10 de outubro. A PEC paralela avançará por outras frentes e em outras datas.

E o teto, tá apertado?

Segundo Bolsonaro é possível que ele reveja a Emenda Constitucional (EC) nº 95 a fim de impedir que o Estado brasileiro fique insolvente. Bolsonaro afirmou, com razão, que em dois ou três anos ele terá que racionar energia elétrica dos quartéis, o que o obrigaria a fazer alterações na referida emenda.

A fala de Bolsonaro não chegou a prejudicar a cotação do Real, que respondeu mais fortemente ao ambiente externo mais favorável. Essa ausência de movimento se deu porque, por enquanto, são só falas de Bolsonaro. Ao menor sinal de avanço desta ideia no Congresso Nacional ou no núcleo duro do Ministério da Economia há potencial de grande desvalorização da moeda brasileira em relação ao Dólar americano.

Perspectivas para o Dólar

O mundo viveu uma semana de relativa paz no que diz respeito aos desdobramentos geopolíticos e econômicos e isso trouxe alívio nas tensões cambiais que rondam as moedas dos países em desenvolvimento. 

A cotação do Dólar que havia fechado a segunda-feira (02/09) em aproximadamente R$ 4,18, fechou o dia seguinte a aproximadamente 4,10, o que mostra o vigor com que foram recebidas as boas (relativas) notícias vindas da Ásia e Europa.

Ocorre que, como já abordamos em outras oportunidades, o brexit e a guerra comercial são disputas geopolíticas importantes, que trarão à tona novas más notícias, ou seja, o alívio é irremediavelmente passageiro.

Em âmbito nacional, o desgaste do presidente frente a outras autoridades internacionais pode impactar negativamente o cenário. A reforma da previdência e tributária, sozinhas não remediarão no curto e médio prazo o desgaste de Bolsonaro, nem tampouco a situação fiscal.

Apesar do alívio momentâneo, espera-se novas tensões e desvalorização do Real para os próximos dias.

Seguimos de olho.

André Galhardo é economista-chefe da Análise Econômica Consultoria, professor e coordenador universitário nos cursos de Ciências Econômicas. Mestre em Economia Política pela PUC-SP, possui ampla experiência em análise de conjuntura econômica nacional e internacional, com passagens pelo setor público.