Estados Unidos, Petróleo e Previdência

Câmbio está sendo influenciado pelas medidas de afrouxamento monetário dos Bancos Centrais

Real passa a valorizar-se frente ao Dólar americano por conta dos desdobramentos políticos internos, sobretudo o avanço na tramitação da reforma da previdência na Câmara dos Deputados.

O movimento de baixa do Dólar referenda nossa análise de curto prazo de valorização do Real, que deve permanecer nos próximos dias. Apesar da melhora do ambiente político interno, forças externas poderosas podem diminuir o ritmo de valorização da nossa moeda.

Acordo Mercosul-UE

Tal como temos dito em outras análises, a despeito da não-formalização do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, o governo brasileiro já começou a se preocupar com a entrada de produtos importados em solo nacional.

Já estão falando em reduzir o Imposto sobre produtos industrializados (IPI) que incide sobre os queijos e os vinhos nacionais, ademais, de modo bastante genérico, os produtos básicos e semimanufaturados europeus têm mais competitividade que os produtos no Brasil.

O governo também tem intenção de onerar os produtos importados com o IPI e, em conjunto com o volume arrecadado dos produtos nacionais, criar um fundo que servirá de aporte para renovação de videiras, por exemplo.

Diante da pressão dos agricultores franceses e da breve movimentação dos parlamentares brasileiros, começa a se desenhar um novo capítulo na história econômica do Brasil, a engenharia tributária que terá a função, junto com o câmbio, de resolver nosso problema de produtividade.

Ameaça de Trump a UE

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.

O presidente dos Estados Unidos parece estar em pé de guerra com a União Europeia (UE). Donald Trump reclamou publicamente sobre a política monetária adotada pelo Banco Central Europeu (BCE), dizendo que desta forma – utilizando juros baixíssimos – fica fácil crescer. 

Trump enfatizou que desta maneira os produtos vindos do bloco europeu teriam vantagens sobre os produtos americanos e que isso precisaria ser resolvido o quanto antes. Agora a birra de Trump parece ter alcançado outras esferas. O mesmo acusou a UE de perseguição contra empresas americanas.

A UE tem adotado medidas antitruste contra empresas americanas de tecnologia como o Google, e isso enfureceu Trump que diz que Margarethe Vestager, comissária de competição da UE odeia os Estados Unidos.

Diante desses e outros problemas como os subsídios concedidos por países europeus às suas empresas, empurraram Trump a dizer que sobretaxará uma ampla gama de produtos provenientes da Europa.

Relaxamento de Tarifas China-US

Apesar do aumento das tensões comerciais junto à União Europeia, o mundo sentiu um certo alívio ao perceber que China e Estados Unidos dariam uma trégua na perseverante guerra comercial.

De certo modo essa trégua serviu para apaziguar os impactos de dados econômicos negativos nos Estados Unidos e na Europa, mas como sabemos, essa “chuva” que regou as esperanças de meses com menor tensão comercial entre China e Estados Unidos, é de verão, passa rápido.

A referida guerra tem mais comercial no nome que em qualquer outra esfera, trata-se de uma guerra geopolítica, e assim sendo, deve se estender por um prolongado período, alternado entre pequenos momentos de tranquilidade com tensões que nos farão pensar no colapso da globalização.

Os conflitos em torno do petróleo

A cotação do barril de petróleo segue errática em todo o mundo. O preço da commodity caiu na tarde de quinta-feira (04/07) depois de ter encontrado algum avanço no dia anterior.

O movimento errático se dá por dois motivos principais: joga contra o preço da commodity (queda) o acordo da Rússia com os novos aliados da Organização de países exportadores de petróleo (OPEC), que decidiram prorrogar o prazo de corte na oferta do produto até março de 2020. 

Além disso, a perspectiva de que haverá, de fato, uma queda significativa na atividade econômica mundial, reforça essa tendência de baixa. A favor do preço (aumento) a diminuição de sondas de exploração nos Estados Unidos e a tensão iranianos e americanos.

Um petróleo mais caro tem como consequência, entre outros tantos fatores econômicos e políticos, a desvalorização do Real, mas até o começo deste sétimo mês do ano, as perspectivas para a cotação é benigna.

Perspectivas para o câmbio

De forma bastante sintética o petróleo e outras commodities agrícolas ainda estão em tendência de baixa em função dos estoque e dos desdobramentos políticos dos últimos dias.

Esse movimento pode ser parcialmente revertido com o alto volume de chuvas nos Estados Unidos e com o agravamento da situação entre Irã e Estados Unidos.

No entanto, no longo prazo, a perspectiva de uma crise mundial joga em favor da diminuição dos preços dos principais produtos básicos, sobretudo aqueles mais ligados à atividade econômica, como é o caso do petróleo.

Com o cenário externo com uma calmaria relativa e com o andamento da reforma da previdência – aprovada com 36 votos a 13 na Comissão Especial da Câmara dos Deputados na última quinta-feira – a perspectiva é de continuidade de valorização do Real nos próximos dias.

Entendendo que a esperada crise internacional venha até o final deste ano, projetamos alguma instabilidade cambial mais forte a partir do término do terceiro trimestre.

André Galhardo é economista-chefe da Análise Econômica Consultoria, professor e coordenador universitário nos cursos de Ciências Econômicas. Mestre em Economia Política pela PUC-SP, possui ampla experiência em análise de conjuntura econômica nacional e internacional, com passagens pelo setor público.