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Trump lançou um novo pacote tarifário, batizado de “Dia da Libertação”, com foco em reindustrializar os EUA. Países como China, Índia e Vietnã foram os mais atingidos — o Brasil escapou com uma tarifa de 10%.
Mesmo assim, o mercado reagiu mal: dólar disparou, Ibovespa caiu, e o Bitcoin afundou para sua menor cotação do ano. As incertezas cresceram e o risco de inflação global aumentou. Apesar do cenário tenso, empresas brasileiras seguem pagando dividendos. E com o dólar perto de R$5,90, o câmbio segue pressionado.
É hora de diversificar parceiros comerciais e manter os olhos na volatilidade. Acompanhe a seguir.
Quais foram as medidas da política tarifária de Donald Trump?
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, detalhou na quarta-feira (2) sua nova política tarifária, um marco de ruptura com a lógica de livre comércio que norteou a economia global desde os anos 1980.
Sob o nome simbólico de “Dia da Libertação”, a medida impõe tarifas recíprocas a importações, ou seja, os EUA passaram a taxar produtos estrangeiros com base no tratamento que esses países dão às exportações americanas.
A guinada é claramente protecionista e isolacionista. Seu objetivo declarado é reindustrializar os Estados Unidos, com foco em setores tradicionais como o automobilístico — símbolo do antigo cinturão industrial de Detroit. Para analistas, trata-se de uma tentativa de Trump de reposicionar os EUA como potência industrial, ainda que mirando em um passado de glória.
As alíquotas variam conforme o país. O Vietnã foi um dos mais penalizados, com tarifa de 46%, seguido pela Índia (52%) e pela China (34%). A União Europeia recebeu uma tarifa de 20%. Já o Brasil, assim como Reino Unido e Singapura, foi relativamente poupado, com uma alíquota de 10%.
A fórmula para definir as tarifas foi simplista: dividir o déficit comercial dos EUA com o país pelo volume de importações, e aplicar metade desse valor como tarifa.
Reflexos da política tarifária de Trump sobre o câmbio – dólar acima de R$6,10
A guerra comercial entre Estados Unidos e China atingiu níveis críticos, com tarifas recíprocas que já ultrapassam 100%, gerando uma onda de instabilidade global que atingiu em cheio os mercados emergentes.
O real, que vinha em trajetória de valorização, sofreu uma reversão abrupta e já figura entre as moedas que mais se desvalorizaram no mundo — superando 6,6% de queda apenas nos primeiros dias de abril. A cotação do dólar disparou para R$6,11, e o Brasil passou a ser associado, nos mercados, a economias com sérias fragilidades externas.
O risco agora é de que essa combinação de aversão a risco, fuga de capitais e disfunção cambial leve a uma deterioração acelerada das expectativas econômicas, com efeitos diretos sobre inflação, juros e atividade. O sinal de alerta está aceso.
Como a política tarifária de Trump pode afetar a economia brasileira?
Embora o impacto direto sobre o Brasil seja limitado no curto prazo, as consequências indiretas já começam a aparecer. O Ibovespa fechou em queda de 1,31%, aos 125.588 pontos, e o dólar à vista subiu 1,30%, negociado a R$5,9106 — o maior patamar em um mês.
O encarecimento das exportações pode pesar sobre a balança comercial e, ao pressionar o câmbio, gerar maiores preocupações inflacionárias. O câmbio desvalorizado pode garantir exportações mesmo com as tarifas elevadas, principalmente de commodities, mas esse efeito não deve compensar os problemas gerados pelas tarifas.
A alta de custos, derivada de um câmbio próximo de R$6,00 pode gerar um novo repique inflacionário aos produtores, que será repassados aos preços, além de favorecer de sobremaneira as exportações – o que pode diminuir a oferta interna de produtos e alimentos.
A taxação mais leve em relação aos concorrentes pode gerar uma vantagem competitiva para o Brasil nas exportações para o mercado americano. Ainda assim, os efeitos da guerra comercial tendem a ser amplamente negativos para o comércio global, com aumento de incertezas, retração de fluxos internacionais e, principalmente, inflação – preços mais altos na produção global devem afetar a economia brasileira.
A médio e longo prazo, o cenário reforça a importância de diversificar os parceiros comerciais. Aprofundar relações com a Europa, Ásia e África — especialmente com os países do Brics — será crucial para o Brasil reduzir sua dependência do mercado americano.
E os criptoativos?
As criptomoedas também sentiram os efeitos do novo ambiente com a política tarifária de Trump. O bitcoin atingiu sua menor cotação do ano, chegando a US$74.524. Embora tenha se recuperado levemente ao longo do dia, fechou cotado a US$79.181.
Apesar da recuperação ao longo do dia, a derrocada do BTC é evidente. O movimento reflete a saída de investidores dos ativos mais voláteis e a busca por proteção em títulos soberanos — especialmente os dos EUA, cuja solidez é vista como refúgio em momentos de turbulência.
É uma reviravolta diante do otimismo do início do ano, quando o bitcoin superou os US$109 mil impulsionado pelas expectativas de expansão do mercado de cripto ativos e medidas em prol da regulamentação econômica destes ativos com a posse de Trump. Agora, o mercado reavalia os riscos envolvidos.
Apesar de alguns avanços de Trump neste sentido, cenários de incerteza extrema geram fugas abruptas do BTC e do mercado de ativos digitais como um todo. O BTC deve se valorizar novamente no médio prazo, mas apenas quando as incertezas se dissiparem.
E os Dividendos?
Apesar da tensão externa, empresas brasileiras seguem distribuindo lucros. Entre os destaques da semana estão:
- B3 (B3SA3) – JCP de R$ 0,06 por ação
- Telefônica (VIVT3) – JCP de R$ 0,24 por ação
- Renner (LREN3) – JCP de R$ 0,18 por ação
- Porto Seguro (PSSA3) – Dividendo de R$ 0,12 por ação
De olho no câmbio
O Índice VIX, conhecido como “índice do medo”, oscilava próximo de 21,5 pontos antes do dia 02 de abril. Na segunda-feira (07), o índice chegou aos 45 pontos, expondo claramente como o mercado está inseguro e desconfortável com a situação recente.
Os agentes de mercado começam a cogitar um cenário de estagflação nos EUA por conta da política tarifária de Trump. A inflação realmente está praticamente contratada, enquanto a recessão econômica pode ocorrer tendo em vista que os juros seguem elevados e o aumento de custos abrupto pode comprometer em demasia a renda das famílias americanas.
Com o aumento da incerteza global, investidores priorizam ativos considerados mais seguros. Isso tende a manter o dólar e o euro pressionados para cima no curto prazo, penalizando moedas emergentes como o real. No entanto, um eventual recuo de Trump em suas medidas ou maior clareza nas regras comerciais pode trazer alívio ao câmbio global.
Até lá, volatilidade deve ser a palavra de ordem e o real deve seguir próximo aos R$5,90..
Seguimos de olho.